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Breve geografia de sons

por Torradaemeiadeleite, em 23.11.14

 

Arte de Nikki Rosato.

 

 

Pela cadência que o rapaz levava nos passos adivinhava-se o ritmo da casa e o estado que a animava. Ajustava o caminhar aos sons que escapavam daquele interior sempre aberto à rua, com indiferença pelo estado do tempo, a parecer mais uma península de exterior rodeada de casa do que uma recolhida, velada, forma de lar.

A fachada tinha espaço para uma porta e uma janela, mas na verdade podia prolongar-se até aonde o rapaz levasse os seus passos, meneios e ritmos, os dias em que a casa parecia não alcançar qualquer parede ou obstáculo. Raros, breves, sonoros dias.

O interior destilava sons que já não se usavam, teimoso repetia o riscar da agulha no disco, orgulhoso torturava as teclas da máquina de escrever. O rapaz escutava e acertava a marcha.

Veio um dia e com este a errância inesperada dos passos, um pára-arranca a baralhar o ritmo, sem acertar com nada. Na fachada que em algumas horas não tinha limites, exibiu-se uma estreiteza e um constrangimento do espaço como nunca antes visto. Os passos voltaram atrás porque a dúvida faz andar para trás. Do que foi errático nasceu a pausa súbita e preocupada. A porta estava aberta, como de costume, a janela estava aberta, como de costume e o rapaz espreitou, mas não viu nada. A sua própria respiração era a única certeza que sentia e o único som que ouvia. Teve que seguir caminho, levado talvez pela força dum compromisso. Só que, de um modo humanamente ubíquo, deixou-se ali ficar até ao dia seguinte. Só ele percebeu, então, e só ele foi capaz de aviso e solução.

Fechada a porta e fechada a janela, estranhamente semblando agora a forma recolhida e velada de um lar, ficou a região peninsular sem istmo e revelou-se uma ilha abandonada.

Perdeu-se esse território e perderam-se pessoas ( mais do que uma, porque o rapaz já não passa ).
A rua já não é como era, é um facto, de tal modo se transformou que seria preciso desenhar novo mapa para podermos esclarecê-la devidamente. Mas desse mapa interior e diferente, diminuído, só o rapaz conhecia a escala e a linguagem, os sinais e os pontos cardeais. Para ele, tão necessária como um mapa, foi a sucessão dos dias e o passado que se acumula sem esforço para aceitar as novas geografias dos sons ou simplesmente guardar a sua singular história.

 

 

 

 

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2 comentários

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De F. a 09.12.2014 às 10:03

Os textos são agora mais escassos mas quando renascem fica logo perdoada a falta (deles). É sempre um prazer lê-la, querida Torrada!
Um grande abraço,
F.



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De Torradaemeiadeleite a 09.12.2014 às 11:08

Obrigada, F. Dito assim e dito por si, é mais do que um elogio.

Beijos, muitos.

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