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Ceci n'est pas la fin du monde

por Torradaemeiadeleite, em 13.01.15

 

 

Angelus Novus de Paul Klee

 "Angelus Novus" de Paul Klee.

 

 

Benjamin Walter, sobre este quadro:
"Há um quadro de Klee que se chama Angelus Novus. Representa um anjo que parece querer afastar-se de algo que ele encara fixamente. Seus olhos estão escancarados, sua boca dilatada, suas asas abertas. (...) Ele gostaria de deter-se para acordar os mortos e juntar os fragmentos. Mas uma tempestade sopra do paraíso e prende-se em suas asas com tanta força que ele não pode mais fechá-las. Essa tempestade o impele irresistivelmente para o futuro, ao qual ele vira as costas, enquanto o amontoado de ruínas cresce até o céu. (...)"

in "Teses Sobre o Conceito de História"





A clareira servirá. O espaço é apelativo e permeável.
Das árvores que a delimitam nem a cinza das raízes sobrará. Ao menos dois esqueletos enegrecidos, os mais obdurados, de pé, mesmo que lugubremente memoriais, seriam o sinal da possibilidade de algum futuro, só que nem memória restará.
Não conheceremos o que os originou, mas haverá movimentos dissonantes num segundo e, no segundo seguinte, a luz será diferente - é forçoso que seja, depois de uma tragédia nascer. É breve a linha para a alteridade.

Para já, prepara-se a mente. As formas pequenas, outras aos pares, umas solitárias, algumas patas pela trela, jogam bola, sentam-se, correm. Todas presentes e pulsáteis até à distância. Outras nem parecem pertencer à gravidade. É Inverno e por isto a clareira poderia perder propriedades, todavia, é Inverno e por isto ela ganha protagonismo. Uma tarde destas, limpa, num lugar sem caos sensorial, apura o que nela existe e aproxima-nos das essências. Eis as matérias perecíveis, sensíveis, fulgurantes enquanto morrem, e o espaço em volta que se sublevará. O acaso é o único corpo presente desde sempre e é aquele que continuará depois de tudo e de todos.
Por ser um pequeno texto impressionista, as matérias estão aqui como pontilhados de cor que perfuram ou interrompem o corpo antigo e lhe dão expressão. O movimento de umas e o dele revela-se plural na reflexão da luz que inflama e alucina a percepção. A atenção irradia dos contornos esbatidos, nenhuma sombra é negra, nenhum bem encontra aqui o seu mal.
Como se descreve o instante em que tudo deixa de ser?
Não sabemos, mas primeiro, ouve-se um silvo agudo que vem de toda a parte, e arrasta e empurra e corta e ensurdece. A surdez dói e leva as mãos à cabeça. Depois, o Sol passa a ocupar o céu inteiro, não tem caminho para seguir e agride e ferve e esfola e cega. O brilho súpito não deixa perceber, num vislumbre ao menos, os limites da terra e do ar, nem a importância do olhar que avisa e prepara. A cegueira paralisou, chorou, uiva toda a incompreensão da sorte e todas as formas são obrigadas a abandonar a expressão do corpo maior. A ordem cai de joelhos e põe em garra as mãos no chão. Uma força  varre o ar e dissolve em si todas as colisões e todos os abraços. O ar queima. Mais nada.
Quem sobreviver ao instante em que tudo deixa de ser, que discorra das impressões que possam ficar ainda.

Só duas certezas se perfilam no segundo em que o pensamento ainda o é: que a clareira deixará de servir e que um Sol caído por terra não faz mais que soluçar de morte.






 

 

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