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Cem imagens

por Torradaemeiadeleite, em 28.09.15

 

 

Uma fotografia com o telemóvel tornaria esta proposta mais leve na execução e pronta a ser digerida. Não facilito - o caminho que percorro será, em si mesmo, a imagem mais interessante, mais do que o ponto de chegada. Talvez que, a melhor forma para descrever agora seja recriando as sensações. Recriar, retenham este verbo.
Caminharei com os músculos, os ossos e o sangue das palavras - e arrisco só uma aproximação, uma torpe aproximação, àquele lugar e àquele sentir. E anote-se mais isto: o
s cinco sentidos habituais servem um outro, este consciente que reconhece e reinterpreta o que os outros lhe apontaram.
Na minha mente, a minha pele e aquelas ondas foram a mesma e uma só coisa; trago ainda a crista delas, atirada para trás pelo vento de leste, na sinestesia dos meus pêlos eriçados e do meu cabelo projectando-se para o horizonte, comprido sem nunca acabar, e continua o meu tacto a fazer aquela curva de esfera azul até aonde nunca pisei nem pus as minhas mãos.
Na minha mente, as cores daquela água são as da biologia que resiste à improbabilidade, à impossibilidade até. Nunca a água terá um só tom de cor e nunca os meus olhos repetirão tal e qual o que esteve e o que foi deposto à minha volta nessa hora. Há mais visões nos mundos do que textos escritos para serem lidos. E há visões que não requerem o primado dos olhos para o serem.
Na minha mente, a areia que amanheceu então, num alisado odor de oceano revirado pela corrida dos cães e pelo peso que cada pessoa, desde cedo, transportava sobre os ombros, é também
uma réplica do que, fora deste mundo, permanece como grãos do instante primordial ( se pode ser definido assim, "instante" ) a partir do qual tudo se precipitou e chegou a este em que escrevo, o pulsar de teclas a comporem sons inaudíveis. E foi inaudível esse começo da consciência - tudo está ligado entre si.
Aquela manhã, posso descrevê-la assim, e só por agora assim, foi fotografia feita a múltiplas camadas de tempos e de lugares.
Em todos os dias seguintes, poderei vir aqui acrescentar, e sobre aquele
amanhecer vulcanizar mais uma textura, mais uma cor, um sabor, uma essência, outro lugar, um milénio, uma frase.
Hoje, o caminho. Piso-o leda e sem defender qualquer propósito útil. E poderá o útil alguma vez adjectivar o belo? O belo, coisa casmurra que ainda é capaz de insinuar-se por entre os escombros destas horas que servimos e nos são servidas. O belo, sentido talvez nesta imagem irreplicável que as minhas palavras propõe à meditação
. O belo, sempre múltiplo como múltiplo é cada leitor. E primordial. E unificador. E urgente.


 

 

 P.S.:      https://youtu.be/9dz4UYZIQps







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