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Das minhas leituras

por Torradaemeiadeleite, em 25.03.14

 

Pintura de Lev Lagorio - "Moonlight Night on the Neva River" (séc XIX).

 

 

Debruço-me sobre a água do Neva. A cidade é uma silhueta recortada de pôr-do-sol. Passa a caleche apressada porque alguém a espera há já muito tempo e ouvem-se as fanfarronices dos que gastam o tempo nas portas das tabernas escuras e nauseabundas. Os passeios de madeira e os pátios com porteiros acusam as pressas do fim do dia. Vêm muitos das suas tarefas e ofícios, recolhem ao quarto pobre e ao calor do chá, encarando as paredes com o papel amarelo puído e rasgado, as primaveras e os verões de flores cada vez mais caídas e baças, como baça é a vista que têm do seu próprio futuro e perdidas as primaveras sob o jugo da indiferença.

São Petersburgo ainda não parou. E não parará, mesmo de noite. As mulheres do livrete amarelo e os bêbados, os Roskalnikov e Svidrigáilov desta e de qualquer outra cidade tratam a noite como mais um dia. Só o cansaço ou as febres, as tempestades ou a morte os prostram inânimes, suspendem a clandestinidade e atiram-nos para um lugar silencioso, fundo e escuro.

O rio Neva e a sua cidade. Debruçada sobre a escuridão da água a cismar. Na ponte que é o salto para o suicídio, a passagem para essa outra margem, na ponte que congrega os passos perdidos dos seus personagens e os frágeis corações atemorizados. Ficam-me estas impressões.

Saio daqui num comboio até à Sibéria. Vêem-se as iurtas e os nómadas ocupados com o fogo dos dias  e com os seus animais, as vidas que levam simples e que Ródion ( já somos íntimos, conheço-lhe os pensamentos ) ainda não entende. Em breve. Falta pouco para também ele encontrar razão para viver. A sua experiência e as suas escolhas trarão enfim a oportunidade de renovação que o iluminará. A mesma razão que o levará a suportar sete, ainda sete, anos de trabalhos forçados.

Ando daqui para acolá, num exagero de terra, num século russo de transições. Só não saio do livro.

Acontece-me isto, às vezes. Fico nos livros ainda depois das últimas frases, depois do fim que o escritor sugere ( que eu encaro como uma sugestão - os leitores também escrevem e o final nem sempre é o que o autor imaginou ). Não consigo enredar-me noutra leitura de imediato. Durante pelo menos um dia, às vezes dois ou mais, arrasto comigo a história e só pouco a pouco me vou despindo da pele que me cobriu - leituras ofídicas, e dá para rir. Quantas peles conseguimos renovar?

Com os cotovelos apoiados, seguro a minha cabeça na mão esquerda e com a direita aconchego o meu lenço de drap de dames. Recebo o frescor da água, pressinto a chegada da trovoada, as de Julho são tão ruidosas. Talvez a tempestade chegue ao rio Neva e ele inche e transborde. Que limpe os passeios e leve consigo a miséria humana. Se derem um tiro de canhão é certo que há perigo de cheia.

Pensativa. Sobre os autores que sabem preparar bem uma pele. Os que reconhecem primeiro a boa matéria-prima e que sabem depois evidenciar as melhores propriedades e esconder habilmente os pequenos defeitos. Cuidam da pele com saber e talento e fazem com que dure muito tempo sempre bela. Do leitor penso que deve ser capaz de esquecer-se da sua própria pele ou então deliberadamente pendurá-la num canto do quarto, sobre a cadeira e a velha agiota debruçada que ri do seu assassino porque ele falha em provar a sua própria teoria. Vestirá temporariamente esta que, por ser tão boa, não quererá abandonar completamente. O corpo altera discretamente a sua forma e é preciso reajustar a pele antiga. O leitor - o ser em permanente renovação.

Assez causé. Deixo as iurtas e a enfermaria da prisão, volto às ruas de São Petersburgo nomeadas só com iniciais. A multidão na praça tem vontade de ruído e de negócios. Retiro-me para o lúgubre estabelecimento, para perto do samovar. Ouço as conversas dos estudantes e as suas novas teorias, na outra mesa os mujiques a vituperar. No espelho da vodka entornada por outros estranhos fica a luz ténue a dançar. E eu. Vou permanecer por cá mais algum tempo a pensar, a ajustar a pele ao corpo.

 

 

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