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Des- ( alguma coisa )

por Torradaemeiadeleite, em 28.08.14

 

 

Fotografia de Torradaemeiadeleite.

 

Já é tempo de voltar a teclar. Teclar é a acção que retomo, não escolho "escrever". Nas minhas folhas a escrita não se interrompe como nesta janela meio aberta para algum mundo, mas há coisas que ponho no papel e que do papel não tiro para nenhum outro lugar e agora não vou deter-me nas razões de assim o fazer. Se fosse um pintor chamar-lhe-ia pinceladas de ocasião, a cor que o momento sugere, uma pincelada que é às vezes uma palavra só, um poema que outro escreveu e me prende, o nome de uma música e às vezes frases e textos de tamanho mirrado. Rabiscos. Também rabisco nas minhas folhas, são rabiscos, não tenho habilidade para mais do que isso e lembro-me que se pudesse escolher duma montra as habilidades que quisesse como minhas, seria ainda o desenho aquela que me faria mais crescida - vejo-me uma sketcher provavelmente, para surpreender nos traços instantâneos o lugar e os seres, a atmosfera e até a promessa de que algo mais está no desenho, indefinido e sem detalhe mas mora ali nos espaços em branco, tão legível e tão visível como todo o carvão ou tinta ou cor que habitam por fim a retina, dilatam as pupilas. O cérebro captura essa promessa antes mesmo dos sentidos. Essa forma de arte que cabe onde as minhas palavras se detém.
Assim deixo as escolhas. Agarro o que tenho e procuro melhorá-lo - as letras lidas e as que leio e as que virão para me lembrar que sou pequena ( ainda, talvez? ) para sonhar com as que poderão nascer da minha pena. Ser uma leitora, verdadeiramente e "indigentemente" leitora como já vi anotado por quem pensa estas coisas, é empresa com obstáculos e quedas mais que suficientes para sequer me deixar forças para ânsias de escrevedora. Quem acrescentará aos leitores geniais as palavras e os estados de alma que não tenham vivido ainda aos ombros tais dos gigantes que antes de nós firmaram brilhantemente as letras no infinito resgate do que somos?
É grande o meu devaneio, reconheço-lhe a veia melancólica e a coarctação insuperável que a dúvida do "para quê?" impõe desde todos os tempos, e dela padeço, replicada descendente que sou da mesma essência. Esta questão, formulada assim, só angustia, precipita e destrói, mas é de construção que eu preciso. Ainda consigo destrinçar que são outras as questões que me devem guiar, beber nelas a força para não desesperar, sim, beber, que a sede mata mais do que a fome e por isso tem que ser saciada com mais urgência.
Pequeno compasso de espera. Miro atrás. Parece que desemperrei algo que me incomoda ultimamente. Não idealizo o que consegui, se alguma coisa consegui, e nem vaticino o que virá mais logo ou amanhã, eventualmente dias depois deste desenguiço. A única certeza que honestamente consigo partilhar é que exteriorizar este pensamento fragmentado,  buscar o léxico que mais se aproxima do que ele é, já me fez bem porque deu-me para sorrir, assim aqui, neste segundo que antecede este ponto final.


 

 


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