Saltar para: Post [1], Comentar [2], Pesquisa e Arquivos [3]




Génesis

por Torradaemeiadeleite, em 02.05.14

 

Fotografia com memória de Torradaemeiadeleite.

 

 

Os caminhos eram os nossos teatros. Não eram só feitos para andarmos neles, serviam também as tábuas do nosso enorme palco. Encenávamos as casas onde repetíamos o que víamos todos os dias. Dos adultos trazíamos os afazeres e as ordens que proferíamos, todos os planos que mantinham a rotina como chave mestra da vida, mais os gestos, e os palavrões que ouvíamos chicotear o ar. Já nos era perceptível então que  viver não era fácil, mas ser adulto era a melhor ideia que tínhamos da força e do poder e é tão sedutor ser forte e poderoso.

Dirigíamos também nos caminhos as profissões que conhecíamos, se compras, vendo, curas gente e arranjo carros, pilotas aviões e sou pedreiro, és polícia e levamos ladrões p´rá cadeia. Ensinámo-nos uns aos outros.

O medo de ir para a cadeia. Queixo-me a si, senhor guarda, para que prenda este passado que atenta agora contra a ordem dos meus dias, estes dias assépticos da minha terra que não tem crianças com canelas sujas e ranho nas mangas da camisola, crianças que massacravam o chão e urravam e faziam de conta que eram peregrinos em procissões, que responsavam sem entenderem o que diziam, que eram os chorosos doridos de animaizinhos mortos levados a enterrar com muita cerimónia e menos dor, estes namorados a bailar e a brincar aos pais e às mães - venha senhor guarda, prenda-o, que este passado tem culpa grande e grave, a de não voltar a ser presente.

Nos caminhos injuriávamos os animais que se cruzavam connosco. Para eles, o nosso palco era uma travessia de imprevisível dificuldade e provável ignomínia. Ilustro com exemplos básicos - acirrávamos os cães para os ver engalfinharem-se, ter espectáculo de assombro, até mesmo de sangue, que atraía raios que nos partiam saídos da boca de quem nos apanhava e, em dias de mais cândida inocência, gostávamos de pôr os galináceos a fugir espavoridos, alvos em movimento errático para os que provassem ter mais destreza e pontaria fina, cacarejavam-nos impropérios com certeza, como os donos que calhava de aparecerem, e os lagartos,  escapuliam-se pelos buracos das paredes com menos corpo do que quando chegavam à nossa vista. Mas estes eram os mais felizes porque, nos dias de memorável arroubo, tudo o mais que respirasse e tivesse locomoção, desde que em escala menor que a nossa, servia para saciar a despótica natureza infantil e a vontade de experimentar novas bizarrias. Nós, os pequenos loucos cientistas, dos que sonham o mundo à sua mercê, nós, os pequenos césares vaticinando vida moribunda ou morte lenta aos bichos que se perfilavam na nossa presença.

Nos caminhos adiávamos a hora da merenda porque era mais urgente procurar nos pardieiros os objectos renegados e lançados para o degredo de silvas e pedras, outrora reinos íntimos depois rendidos à anarquia e à invasão das hostes imberbes. Procurávamo-los e, sem suspeitar que o fazíamos, devolvíamos-lhes as suas identidades, readmitíamo-los à sua função e havia ainda aqueles que adaptávamos para outras utilidades, generosamente reciclados e ajustados, umas vezes baixando de posto, mas noutras, em raras fortunas, elevados a um destaque jamais sonhado pela sua humilde essência. E às partes atribuíamos-lhes o todo - o caco da tigela era a tigela inteira, o gargalo da garrafa ia à mesa como garrafa capaz, o farrapo da saia era a saia mais que perfeita para a boneca.

Nada disto assimilávamos como sendo ensaios da vida, disso encarrego-me agora eu espreitando por esta fenda para a minha memória.

Os caminhos eram os nossos teatros e neles também escrevíamos o nosso Génesis. Criámos neles mundos à imagem desse tempo primordial e rural e por isso desfalcados de bibliotecas, de computadores e de internet, de cinema e de centros comerciais, destituídos de telemóveis, mundos-filhos de um universo com propriedades únicas porque são irrepetíveis.

As casas têm agora portas fechadas e chaves escondidas, os teatros de então são só caminhos para andar e estão muito mais limpos do que naqueles anos. As galinhas estão confinadas a espaços vedados à cobiça da raposa porque já não há movimento de gente nem cães que as defendam da natureza selvagem que chega cada vez mais perto da soleira das portas. Os lagartos andam tão tranquilos que qualquer hora já nem sabem que podem perder e ganhar os seus rabos.

As crianças voltam de vez em quando, já não formam hostes, nem em número chegam para agrupar e invadir tudo à sua volta. Sei de aldeias que não têm nenhuma criança. E então quando chegam, não dizem palavrões, não limpam o ranho às mangas, respeitam os animais porque lhe têm medo ou porque percebem que têm direito à vida, e não correm porque os caminhos estreitaram com tantos ramos por podar, esburacaram-se porque não há quem os repare mas, sobretudo, porque não têm motivos para correr - não têm companhia que as desafie para provas de velocidade e de força, para uns saltos no vazio das varandas de granito, outros que lhes digam que em tal sítio encontram muitos enredos e o primeiro a chegar lá terá a sorte de escolher os melhores cacos. Mas, que cacos? Não se brinca com cacos e não se apanham coisas do chão. Mas, que cacos, insisto? Se não há gente, não pode haver cacos.

Nos caminhos vivemos mais horas do que em casa e agora eles estão em ruínas, como os pardieiros em que nos aventurávamos. Os caminhos estão a perder gente, mas há muitos anos que perderam as suas crianças.

E ainda como os pardieiros, os meus primeiros palcos já são só pedras e pó, com silvas a enredarem-se em si próprias.

 

 

Autoria e outros dados (tags, etc)


Comentar:

Se preenchido, o e-mail é usado apenas para notificação de respostas.

Este blog tem comentários moderados.

Este blog optou por gravar os IPs de quem comenta os seus posts.





subscrever feeds




Pesquisar

  Pesquisar no Blog

Torradas com bolor

  1. 2019
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  14. 2018
  15. J
  16. F
  17. M
  18. A
  19. M
  20. J
  21. J
  22. A
  23. S
  24. O
  25. N
  26. D
  27. 2017
  28. J
  29. F
  30. M
  31. A
  32. M
  33. J
  34. J
  35. A
  36. S
  37. O
  38. N
  39. D
  40. 2016
  41. J
  42. F
  43. M
  44. A
  45. M
  46. J
  47. J
  48. A
  49. S
  50. O
  51. N
  52. D
  53. 2015
  54. J
  55. F
  56. M
  57. A
  58. M
  59. J
  60. J
  61. A
  62. S
  63. O
  64. N
  65. D
  66. 2014
  67. J
  68. F
  69. M
  70. A
  71. M
  72. J
  73. J
  74. A
  75. S
  76. O
  77. N
  78. D
  79. 2013
  80. J
  81. F
  82. M
  83. A
  84. M
  85. J
  86. J
  87. A
  88. S
  89. O
  90. N
  91. D
  92. 2012
  93. J
  94. F
  95. M
  96. A
  97. M
  98. J
  99. J
  100. A
  101. S
  102. O
  103. N
  104. D
  105. 2011
  106. J
  107. F
  108. M
  109. A
  110. M
  111. J
  112. J
  113. A
  114. S
  115. O
  116. N
  117. D
  118. 2010
  119. J
  120. F
  121. M
  122. A
  123. M
  124. J
  125. J
  126. A
  127. S
  128. O
  129. N
  130. D
  131. 2009
  132. J
  133. F
  134. M
  135. A
  136. M
  137. J
  138. J
  139. A
  140. S
  141. O
  142. N
  143. D
  144. 2008
  145. J
  146. F
  147. M
  148. A
  149. M
  150. J
  151. J
  152. A
  153. S
  154. O
  155. N
  156. D
  157. 2007
  158. J
  159. F
  160. M
  161. A
  162. M
  163. J
  164. J
  165. A
  166. S
  167. O
  168. N
  169. D