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Geografia ao redor de mim mesmo

por Torradaemeiadeleite, em 07.01.15

 

 

 

 

Autoportrait_tournant_Nadar_c.1865[1]

Autoportrait Tournant - Félix Nadar, 1865.

 

 



Li um livro de Geografia e presumi que fosse um livro de metáforas.
Das generalidades às particularidades, da memória Láctea à composição do planeta, em cada folha vi a demarcação dos territórios, os rios, as cordilheiras e as ilhas, mas dizendo os nomes oficiais, penso-os como territórios de sensações sempre rodeados de algo que poderá ser água, terra, fogo ou ar.
Erupções e avalanches, terramotos e furacões revolvem os estratos da ( quase ) esférica vida que flutua no rendilhado negro das poeiras. E penso-os também nos lares confinados e no indivíduo. Tudo servido em camadas, em depósitos e na erosão da experiência que nos vai morrendo e nascendo, formada milenarmente ou à força bruta em nano-instantes.

Reconheço nas ilustrações as origens das viagens de autor ao núcleo inacessível, das aventuras assumidas como ficções. Núcleo. Inacessível. E percebe-se que esta busca se cumpre com caminhos mais despercebidos do que os da narrativa, andados discretamente, na maior parte das vezes solitariamente, até a esses âmagos sempre novos e sempre únicos porque não há linguagem que consiga defini-los inteiramente e, assim, o velho parece sempre novo.
Reporto-me ao âmago da terra, como ao interior de nós mesmos. Está tudo ligado entre si e tudo ligado àquele livro de Geografia de capas cosidas com linha preta, grossa, que a primeira lombada já se foi há muito, mas há teimosia brava no querer guardá-lo. Percorro-o com cuidado de folhas rasgadas, sigo em busca da terra, do horizonte e do céu.

Esta é uma enquete interior para perceber se a partir de cá consigo finalmente saber o que fazer aí fora. Como na geografia, as explicações para o que se vê não se estendem na superfície e viajo ao centro de mim - preciso de mais imaginação do que a que Verne, num significado mais imediato de viagem, e outros para os outros significados do termo, capazmente traduziram em palavras, ficcionadas até prova em contrário.
Pergunto pelas cruzadas que esqueci atrás da curva. Em que parte da estrada ficou a certeza? Qual foi o instante em que abandonei na rajada do vento o estandarte da confiança, pueril talvez, mas ainda assim uma confiança no devir? Fronteiras, ventos e desertos, eis algumas palavras na ponta dum fio com livro de territórios metafóricos no outro extremo, e mais estas, magma, abismo.
Não, tropeço no que escrevo ( para algo tinha que servir isto ) e reconheço que o que procuro, com esta relíquia nas mãos, não são as cruzadas perdidas, nem as bandeiras rasgadas na intempérie dos dias. Procuro o que tem de vir a seguir, melhor, procuro a assumpção da geografia que está ainda por traçar no livro mas que já é por mim vislumbrada. E a saída deste interior em que me enredo e demoro, também.
Um lampejo de algo que não sei se é lucidez, pode ser uma ausência de lirismo, mostra-me que, se eu ficar aqui tempo demais, arrisco perder-me cá dentro. Perco-me primeiro no avesso para, logo depois, perder-me no que está para lá da minha pele.

Li há pouco o que escreveu o poeta Pessoa, "dói-me a vida aos poucos, a goles, por interstícios. Tudo isto está impresso em tipo muito pequeno num livro com a brochura a descoser-se".





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