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Os dias que passam XVIII

por Torradaemeiadeleite, em 06.06.14
Pintura de Georges de la Tour.

 

Iguais, conformes, rotineiros. Dias, porém, que são corpos de possibilidades e que contém o perigo e a ebulição de qualquer novo mundo, guardados e usados para inesperadamente se impor. Passam horas, passam eras, passa algo que por conveniência medimos e o nutritivo caldo que exuberará passa, por enquanto, despercebido, pois erradamente desvalorizamos a normalidade, despercebemos as origens discretas do que nos fascina e insistimos em subtraír importância ao acaso.

Que só o extraordinário pode deslumbrar - cedemos afirmar inadvertidamente. E, contudo, relembro-me que o extraordinário não oferece apenas beleza. Abraça ainda o ambíguo e o grotesco, o perverso e o violento, as sensações que, como o belo, nos deixam presos, atraídos ou ofuscados, e que todavia não classificamos como deslumbrantes. Acredito que todas estas variações se aquietam nas circunvoluções do que é normal ou digo, pois, do que é ordinário, sem extra.

Eu aprimorava esta forma de cegueira que é atribuir aos dias iguais nada mais que a minha indiferença. Para ver esse mundo tão inteiro e novo que a rotina vela é importante divisar o que posso ser. E ficarei magnetizada, incrédula, agravadamente roubada ao conforto da normalidade, e perceberei que há muito mais arbitrariedade do que previsibilidade nas formas da vida. Nenhuma lei ou dogma me poderá resumir. As singularidades da vontade são copiosas e desconcertantes. E eis que a redentora beleza e a escura iniquidade habitam juntas o mesmo corpo, separadas só por cortinas de livre-arbítrio já puídas e na iminência de rasgar.

Nas manhãs dos dias banais penso o extraordinário que fermenta e cresce sem ser apercebido e antes sedenta de atalhos, ouso agora o vislumbre de mais mundo e mais possibilidade.

 

 

 


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