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Quase tudo

por Torradaemeiadeleite, em 11.02.16

 

 

 

Sentámo-nos a ver tudo. Tudo.
Tínhamos o fio fundo e requebrado por guia do olhar, fio de água corrente e tranquilizador, a segurança dum fluxo que não estia, pensámos. Até a imponência declivosa e ríspida dos baluartes antigos nas suas margens não fez mais do que conferir a esse fio um respeitoso lugar que se move, que continua, continua, continua, continua. Com tolerância, e sem se oporem, aquele fio de fluxo e o granito estático sublimavam-nos e sublimavam-se. E ambas gostamos de os ver, será sempre assim.
O rasgo da luz vai mansamente bebido pela distância, mas visto de perto é amor impetuoso despedaçando-se em milhões - milhões de gotas vaporizadas sobre os espórulos enregelados, milhões de sons surdos e baques minúsculos nos ouvidos da terra silente, milhões de nós mesmas nuas de frio em corpos de ondas distorcidos durante o choque.
Enquanto houver fio de água fluxo de luz fluindo em mim, tu estarás nele, sobre ele, submergida por ele e eu vejo-te debatendo-te contra ele, por ele, com ele. Nenhuma morte por esse fluxo causada, e nenhuma morte longamente nele planeada ou decidida ao momento, o escurece ou amaldiçoa. Cada vida que com ele se funde, mesmo pela morte, o faz ainda mais fio brilhando, distantemente próximo de nós duas, e tu nele, sobre ele, submergida por ele, ouvindo-me falar assim como só tu própria consegues compreender e jurar ser verdadeiro o que estou a dizer.
À nossa volta e do fio corrente de água, estava toda a visão dum paraíso que não deve nada à perfeição porque, para nós, a perfeição tem que ser disritmia, tem que ser diálogo e tem que ser mutável. Só a antiguidade nos dificulta o abandono das pegadas que temos de cumprir para inventar as nossas mesmas, mas é uma força maior que exercemos quando por fim as deixamos a apagarem-se sobre essa terra. Fazêmo-lo para seguirmos a imagem da água-sangue em fio fluindo por entre as cristas das fracturas expostas ( a nossa paisagem como paraíso do corpo inteiro da dor ) e fazêmo-lo sem conhecermos aonde vamos depois do éden. 
E estávamos sentadas a ver, eu e tu.
Mas dizia-te ( enquanto víamos tudo, e respirávamos tudo, e pensávamos tudo ), vamos esconder com o polegar o fio de água distante, brincar aos donos do mundo, e ora pondo ora tirando o rio do nosso ponto de mira - com um simples rodar de pulso, o polegar para cima que deixa seguir, com um simples rodar de pulso, o polegar para baixo que o apaga da face da terra. Experimentadas ambas as possibilidades, insolentemente por nós experimentados os futuros, decidimos, enfim - que o polegar há-de servir o fio corrente que se distancia e ele destruirá tudo aquilo que não deixe o fluir essencial seguir-se a si mesmo.
Deixámo-nos ficar mais um pouco, lado a lado, as duas a ver o luzente amor despedaçando-se e desperdiçando-se do interior das águas para tudo ao seu redor e acabamos por tomar o gosto a essa razão que se comove. E acabamos a tomar o gosto dessa razão que se comove.



Travis Bedel

 

 

Ilustração de Travis Bedel.

 

 

https://youtu.be/gMNB8BqAJdY

 

 

 

 

 

 

 


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