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Sobre o princípio e o fim num mar de palavras

por Torradaemeiadeleite, em 17.06.14

 

Fotografia de Joel Santos - Dettifoss Waterfall, Vatnajökul, Islândia.

 

 

A água escreve o mundo nas correntes e na espuma, nos lodaçais e nas chuvas. O verbo, porém, é pronto dissolvido. Na liquidez nada permanece escrito e poder-se-ia dizer que, mal nasce, o texto está condenado a ter fim. Só que desta natureza não se pode inferir essa certeza. E sem desespero, a água reescreve.

Não deixa de ser irónica esta condição de Sísifo da água escrevente, mais ainda porque carrega em si o advento de nós, os amos e servos da palavra, inventores da urgência de torná-la eterna, nós os que procuramos sentido: a angústia da solitude e um perene inconformismo não nos deixam actuar de outra forma; todavia a água faz e refaz, sem urgência e sem guardar. É o mundo que ela escreve e mais a continuidade e o retorno. A água é esta verdade - em si tudo é recomeço, muito poderá sobrevir. Que morte pode, assim, ser temida? Nem sequer a da palavra.

Na sua breve caligrafia revela-se o perpétuo adiamento dum fim e a inutilidade de uma justificação. Na água os textos escritos não acabam, só têm princípio e não cessam de existir.

 

 


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