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Sobre Fernando Assis Pacheco e o Dia das Livrarias

por Torradaemeiadeleite, em 30.11.12

"Morrer numa livraria chateia tanto como morrer noutro sítio qualquer, suponho. Mas se é mesmo preciso praticar essa maçada de morrer, que seja em serviço. Foi isso que Fernando Assis Pacheco fez numa manhã de 1995, num 30 de Novembro. Saiu de casa para ir trabalhar, passou pela livraria de todos os dias, apagou-se.
A morte-merdeira não tem atenuantes. A puta infame tem quanto muito coincidências. E neste caso coincide ser Dia das Livrarias a 30 de Novembro.
Acho que sei quem saberia rir da coincidência. E brindo a isso."

 

João Pacheco


( Mensagem de filho que li no sítio da Fundação Saramago. Em boa hora. )



Resposta à crise.

por Torradaemeiadeleite, em 11.11.12

 

 

Fernando Assis Pacheco fotografado por João Rodrigues (anos 90).



Para palavras loucas orelhas moucas. Às frases mais infelizes que ouço sobre o contexto nacional deixo  que o meu queixo caia livremente porque não consigo verbalizar nada sobre o que não compreendo, menos ainda quando o incompreensível sai da boca de homens e mulheres que, pelos lugares que ocupam, deveriam ser sábios.

Os meus dias também são combativos mas ainda tenho a mente suficientemente sã para filtrar o que ouço e optar por fortalecer o meu cérebro com frases boas, muito boas. E da leitura de "Trabalhos e Paixões de Benito Prada" de Fernando  Assis Pacheco vieram tantas, tantas, tantas que  me atrevo  a escrever que ninguém deveria morrer sem antes o ter lido. Não porque o romance tenha a ver com preparação para "a" viagem ou a afirmação seja exagero estilístico de apreciação mas simplesmente porque é muito bom ler ( ou ouvir ler ) este livro que, mais do que de tudo o resto, fala de vida, pois claro. Eu não sei o que nos acontece quando morremos, poderemos depois não  ter usufruto dos sentidos ou então tendo-os poderá faltar-nos uma biblioteca. Assim, bem vêem, mais vale prevenir do que remediar.

Deste senhor já conhecia "A Musa Irregular", uma antologia poética de que partilhei parte de um dos poemas que me marcaram. Gostei da ausência de tabus, da verdade sem floreados, dos floreados sem pretensiosismo, do jeito arrebatado e das palavras inventadas quando a língua não as tem adequadas.

Mas da existência do romance sobre um "galego da província de Ourense que veio a Portugal ganhar a vida" soube pelo desabafo daqueles que já o tinham lido e lamentavam a inexistência de reedições. De facto, desde a primeira edição em 1993 pela ASA que não havia "Benitos" à venda. Decidiu a Assírio e Alvim pela reedição de toda a obra de Fernando Assis Pacheco e 2012 trouxe-me às mãos o tão elogiado livro.

Não vivem nas suas páginas palavras a mais ou a menos. São gráficas, ilustrativas, fotográficas até, muitas delas surpreendentes mas lá está, estas já eram características daquele escrever que me impressionou. As frases conspiram para nos transportar ao falar e viver do fim do séc. XIX e primeira metade do séc. XX, aos ares e caminhos da Galiza e do norte português, ao seu contexto histórico e cultural, à sociedade em geral e a alguns lares em particular.

Desfilam os prazeres do corpo, da boca e da alma, o valor da amizade e da palavra, a singularidade dos princípios (a)morais e a força dos ideais.

Perfilam-se os regionalismos, a têmpera dos personagens, as maquinações do orgulho e do preconceito e os retratos de ambições e frustrações.

E o que é tudo isto se não a vida, com tantas matizes e curvas de estrada? Escrita com palavras insubstituíveis, com humor, com muito humor, com ironia, com espontaneidade, com conhecimento de causa e com imaginação. Não é para todos.

A esta minha liturgia de impressões, falta ainda uma piscadela de olho aos meus conterrâneos que reconfirmarão a nossa múltipla irmandade com os galegos pelas linhas da vida de Benito Prada.

Nada é à toa. Ao talento do escritor aliam-se os genes ourensanos do lado materno que o inspiram nesta  narrativa ímpar.

Termino agora como comecei ( tirando o breve e austero preâmbulo ): ninguém deveria morrer sem antes ter lido ou escutado os "Trabalhos e Paixões de Benito Prada".

 

Pela poesia

por Torradaemeiadeleite, em 21.03.12

 

" E sequem-se-me os dedos a cabeça

estoire e não fique de tudo uma palavra

se a maldição for tanta que eu te esqueça

 

e não reste sequer o chão e não de quantas ruas e

não já reste a cidade

 

e seja a memória deste homem um escárnio ocultado por quinze

           gerações de vindouros

com seus cães que se deitam aos pés das pessoas e parecem adivinhar

        a linguagem monstruosa

das narinas resfolegando

 

se a maldição for tanta e tão perfídia

que eu te esqueça na morte, que eu te esqueça " (...)

 

                                                                                     

                                                                                      Fernando Assis Pacheco

 

                            ( excerto de Memórias do Contencioso, 1980 em

                                                A Musa Irregular - ed. Assírio e Alvim, Nov. 2006 )

 

 







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