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Da filosófica poesia

por Torradaemeiadeleite, em 20.08.14
 
 
 
 
 Vincent van Gogh, "A Estrada de Poplars ao Pôr-do-Sol", 1884.

 

 

"A todos o Céu esconde o livro do Destino,

Salvo do seu presente a página prescrita;

Quem poderia viver sabendo o que ignoram
Dos humanos os brutos e os homens dos espíritos?

O teu prazer condena hoje o cordeiro à morte,

E se ele salta e brinca é que ignora a sua sorte.

Feliz até ao fim, no prado ei-lo a pastar,

E lambendo depois a mão que o vai matar.

Ó cegueira do porvir, que apiedado o Céu doou
A cada ser do círculo que ele traçou:

Deus sobre todos, ao qual só é dado ver

O pássaro cair como o herói perecer;

Átomos e sistemas que em ruínas sucumbem,

Ora uma bolha de água, ora depois um mundo."

 

 

 

Alexander Pope - de "Ensaio sobre o Homem", 1733-34.

 

 

 

Tempo para uma salada

por Torradaemeiadeleite, em 23.04.14
Pintura de Rogério Ribeiro.

 

No meu amado ajuntamento de lombadas, que eu insisto em transformar em biblioteca pessoal, noto uma correspondência com os objectos de estudo da Filosofia ao longo do tempo. Poderia parecer uma vã glória ou o intento duma vaidade começar, assim, este texto piscando o olho ao sublime mundo do saber. Mas não, não é, de todo. É uma partilha - duma coincidência ou, esticando as minhas hipóteses, da constatação de uma caminhada individual que mimetiza aquela que a humanidade empreende desde o seu nascimento. Mas veja-se, em traços largos e descomprometidos, ao sabor do meu momento e dando graças à indulgência dos que me lêem:

No princípio, agarrei-me às lendas e à revelação dos mistérios pelas narrativas orais que, vindas de outras gerações, me incluíam num grupo particular e me preparavam o conhecimento dos limites do nosso mundo. Mas mais tarde, porém, já na posse da leitura autónoma, eram outras as razões que eu queria conhecer, aquelas que não cabiam num lacónico "é assim e pronto!". Esquecer o Lobo Mau, que não tinha assim tanta barriga para caber lá dentro uma avozinha, foi o mais fácil.

Quis conhecer a terra, o mar, a natureza una, embora coberta do manto da diversidade, e o céu também, que restringir-me à terra parece pouco e finito, e com isto na ideia, fiz as minhas primeiras escolhas de livros, para saber de que é feito o negrume do espaço e o coração da Terra, donde vieram tantos seres e que coisa sou eu no meio de toda esta exuberância celeste.

Daquilo que me rodeava, voltei-me depois para a matéria finita que me compõe e, quase, quase de imediato, o porquê da minha mortalidade. Da evolução natural aos microscópicos componentes, dos cinco sentidos e do método científico à fresta aberta para a alma, andei por caminhos obtusos, rectos e agudos, perdida nas escalas, mas achada na beleza de tudo. Li o Carl Sagan e o Stephen Hawking, a Margulis e o S. J. Gould, devorei tudo pensando que saciaria enfim a fome. E viesse sem demora a psicologia e os que estudam sentimentos nos animais e o animal no homem, que eu quero perceber que é isto que tenho cá dentro, e tu também Damásio, traz luz a este ignoto recanto do meu ser.

Da razão ao espírito e do universal ao individual, eis que passou só um instantinho. De adolescência utópica também padeci, oh aulas de Filosofia, que danos causaram em certezas que, com firme vontade, eu tomara como inabaláveis. Liberdade, fraternidade, justiça, pensamento, moralidade - quem me explica o mal que vai no mundo e ainda aquele ser, dizem, que nos fez e logo nos abandonou nos braços do acaso e de nós mesmos.

Foram e vieram as teses, uma dose de "contra-teses", tantas perguntas, que transcendência, não percebo porque me dão a provar um gosto de eternidade para logo depois me condenarem a não viver mais.

Poesia, até que enfim, que bom encontrar-te, vejo que não sou a única com tanto a considerar, mas tenho pressa, vou deixar-te para depois, quando todos os outros saberes se esgotarem e eu confirmar que só tu podes fazer tanto para me sossegar.

Muito ruído e tão pouco tempo, ínfima luminosidade, espaço que aperta, em que buraco me meti, porque comecei a perguntar? Bem, ainda não vi na ficção. Científica? sim, também é um caminho mas, se ainda me perco com o presente palpável como vou orientar-me no amanhã imaginado? Vejo a outra ficção. Saramago, onde é que tu andavas, senhor, e olhó Kafka, como te lembraste dessa do escaravelho, e que é isto Sepúlveda, um velho que lia romances de amor, Joyce, anda cá, isto lá é maneira de saber do tempo, olha o Proust, esquece, tens razão, este passou-se e ninguém o entende. Pois sim, Borges, quero uma biblioteca como a que tu sonhas. 

Quero de tudo e de todos os géneros e continuar a perguntar.

Um facto, enfim: fui apanhada por um vórtice e não consigo, não quero, sair dele. Apetece-me ler o que antes se escreveu e influenciou tantas mentes a ousarem as profundezas da consciência, da memória, do conhecimento científico. Apetece-me ler os mistérios do amor e do tempo, as intermitências da morte, o que diz Voltaire e, porque não, o Molero. Quero ir à Grécia para beber dos clássicos, e depois irei ao fim do Mundo para continuar a surpreender-me. Nabokov, esta fome não ta perdoarei, tanta culpa que tu tens.

Pode ser que me encontre à beira do desnorte, mas até isso é como na Filosofia: a "fome" do absoluto e um ser para sempre inacabado, equilíbrios em desiquilíbrio, perguntas que levam a mais perguntas e a fugidias respostas.

Acabe-se a risota, pronto e ponto. Agora é sério - saber, saber, ainda não saberei nada, mas desconfio que progrido ( sim, sim, agarro-me a isto para não desesperar e, entretanto, venham mais livros que a minha biblioteca tem ainda muito por onde crescer ).

Mais uma torrada e meia de leite, se faz favor.

 

 







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