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O regresso ao futuro de Ida

por Torradaemeiadeleite, em 26.05.09

 

 

Frame do documentário televisivo da National Geographic "Darwin e a Árvore da Vida".

 

Na semana passada rendi-me a um bouquet de improbabilidades que me foi oferecido pela notícia da descoberta dum fóssil oriundo do Lago Messel, na Alemanha.

Conjugaram-se, no mesmo espaço e tempo,  fenómenos já de si raros e  devidamente sintonizados permitiram revelar, com 47 milhões de anos de intervalo, uma espécie  que não se sabia ter existido, bem como os seus hábitos de vida e envolvência natural.

Qual a probabilidade de encontrar um fóssil com aquela idade? Qual a probabilidade desse fóssil pertencer à ordem dos primatas? De apresentar 95% do seu esqueleto lindamente preservado, mais ainda com o perfil cutâneo visível a olho nu e a última refeição ainda identificável? Para mim já bastava, mas saber que tudo isto traz informações acerca da Vida numa época geológica  ( o Eoceno ) que é um ícone da proliferação dos mamíferos e que guarda os ingredientes da separação dos primatas inferiores ( lémures, lóris,... ) dos superiores ( grandes símios, Homem,... ), dá a esta descoberta uma aura enigmática e a comichão miudinha que um segredo por revelar costuma provocar.

Por tudo isto, o Darwinius masillae já tem lugar de destaque nos futuros compêndios da História Natural!

Fiz uma pequena revisão das notícias que falavam de Ida, o nome carinhoso que atribuíram àquela jovem fêmea fossilizada. Afinal, títulos como  "elo perdido" ou "avó" são exageros mediáticos sensacionalistas e que carecem de rigor científico.

Não foram encontrados elementos que coloquem Ida no mesmo caminho que viria a ser o dos humanos e, em entrevista, os seus descobridores apenas se atrevem a chamar-lhe "tia-avó".

Nesse lugar da árvore genealógica, Ida não pode contribuir directamenre para a genética que nos distingue como espécie mas, como um parente que não sabíamos existir e nos é revelado agora, aproxima-nos do verdadeiro passado da nossa "família" e esclarece um pouco as nossas relações com outras "famílias".

Confirmei o que já intuía, que não devemos reduzir a escala da Paleontologia e das ciências da Vida, em geral, à escala da espécie humana.

O nosso ego tem este dom de mitigar as provas que dizem mais respeito a outras espécies e que são, sem dúvida, valiosas para o estudo da evolução biológica no nosso planeta.

Esquecemos repetidamente que ao conhecer os outros elos biológicos estamos também a conhecer-nos a nós próprios. É fundamental interiorizarmos que não vivemos isolados como espécie e, embora fascinantes,  representamos "apenas" o papel dum fruto novo numa enorme e antiga Árvore da Vida.

Bem-vinda ao Holoceno, Ida!

 

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Era uma vez, na Eurásia...

por Torradaemeiadeleite, em 28.11.08

 

 

Reconstituição de menino Neandertal. Foto de Ph. Plailly / Atelier Daynes, 2008.

 

O nosso passado biológico vai sendo conhecido através de retalhos e descobertas desencontradas no tempo e no espaço, com as quais tentamos estabelecer um fio condutor, um caminho evolutivo lógico e a razão palpável para ser o que somos.

Quanto mais descobrimos, tantas vezes acidentalmente, mais questionamos e a medida do nosso conhecimento deveria encontrar a mesma medida de humildade... Afinal, somos jovens, muito jovens nesta Terra e já outras espécies provaram a sua adaptação ao longo de milhares de anos às transformações do planeta, persistindo com sucesso... E nós? O que teremos ainda de enfrentar?

Uma questão, de entre muitas sobre a nossa evolução, tem a ver com os nossos parentes desaparecidos. É com estes que nos entusiasmamos pois  eles podem revelar a parte do caminho  percorrido que é menos iluminada e que nos ajuda a perceber de onde vimos.

Um dos parentescos responsável por muitas voltas ao cérebro dos paleoantropólogos é o Homem de Neandertal.

Só há mais ou menos 150 anos, com provas encontradas no vale de Neander ( a cerca de 13 km de Düsseldorf ) é que percebemos que não fomos o primeiro tipo de humanos a habitar o território que agora se chama Europa. Outros se anteciparam, muitos, mas muitos anos antes,  seres com várias características humanas  mas com outras tão próprias. Confrontámo-nos, assim, com  a nossa chegada tardia, emigrados de África, a um espaço já ocupado e explorado por primos robustos e adaptados a outras altitudes, que faziam fogueiras, caçavam animais de grande porte e se movimentavam no território ao sabor das estações,  eventualmente  mirando-nos com estranheza. 

Este ano, com a ajuda de descobertas em El Sidrón, nas Astúrias,  acrescentaram-se dados aos retalhos que já existiam e  reconhecemos que os nossos primos Neandertais possuíam genes relacionados com a fala , com a cor ruiva dos cabelos e com a pele branca, eventualmente até sardenta. Parece pouco mas é  relevante se nos lembrarmos do estereótipo "feios, brutos e maus" que tão secularmente lhe associámos.

O facto de ter um gene associado à fala, ainda que em moldes diferentes da  nossa espécie, delega mais capacidade intelectual aos seus cérebros, confere-lhes a possibilidade de terem tido mais relações sociais do que se supunha e torna o Homo sapiens sapiens  menos singular do que julgávamos, não será?

Achados anteriores a estes revelaram que também eles ritualizavam a morte,   mostrando-os  mais  emocionais  aos  nossos  olhos e que a sua capacidade para fazer instrumentos pode afinal ter sido subestimada. 

Outras provas sugerem  uma interacção cultural com os  antepassados directos do homem moderno e até cruzamento genético entre as duas espécies, mas seria necessário encontrar mais  dados para tornarem provada essa teoria.

Afinal, sabemos pouco sobre os Neandertais, mas aprendemos que não podemos menosprezar a sua história, e esta torna-se cada vez mais interessante à medida que vão surgindo achados que rompem com o estabelecido previamente.

O acaso poderá expor outras descobertas, mais peças dum puzzle que sempre achei apaixonante  e que estão espalhadas pelo planeta, escondidas ou nem tanto... O nosso raciocínio poderá também perscrutar imensas hipóteses, desde que nos libertemos de preconceitos e rótulos e nos reconheçamos humildemente como mais uma espécie em vez  dos "todo-poderosos" da biologia, aqueles que têm de percorrer um caminho completamente à parte dos outros seres...

 

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Do "caldo primitivo" à conquista galáctica!

por Torradaemeiadeleite, em 04.09.08

 

 

 Imagem de EA Games fase Criatura do jogo Spore ).

 

 A Evolução Natural já não é o que era… Libertou-se dos debates, das publicações científicas e dos livros escolares para se revelar agora num jogo de computador criado pelo designer de SimCity, Will Wright. Este novo jogo chama-se SPORE e espera-se o lançamento europeu a partir de 5 de Setembro ( está quase, quase, quase… ).

Salvando as devidas proporções e os erros inerentes à simplificação de algo muito complexo, pode dizer-se que os mecanismos da evolução biológica serão mais facilmente compreendidos pelo comum dos mortais, basta perceber o abecedário desta linguagem milenar, ser criativo e juntar muitos pontos de ADN.

SPORE é produzido pela “Electronic Arts” e faz-nos percorrer um caminho com milhões de anos de existência em minutos ou horas apenas. Os jogadores vão “desenhando”, a partir dum ser unicelular, seres vivos cada vez mais complexos, dotando-os progressivamente de estratégias de sobrevivência, cooperação e partilha de conhecimentos. Como podem imaginar, os seres criados resultam então muito personalizados podendo, ou não, conter a “fórmula” certa para viver e prosperar (os resultados maus não se fazem esperar num mundo que fervilha de predadores…).

Obviamente este jogo não é cem por cento fiel aos parâmetros científico-naturais e isso deverá estar presente na mente de quem o questiona. O jogo de computador e a vida real não podem ser confundidos mas aquele tem este benefício de abordar questões fundamentais da Biologia e aproximar, duma forma lúdica, a ciência do cidadão comum.

Sr. Will Wright, daqui lhe faço uma vénia por criar alternativas aos temas habituais dos jogos de computador!

Aguardemos, então, a reacção do público.

 

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Os ingredientes da longevidade

por Torradaemeiadeleite, em 09.05.08

Gosto dos estudos sobre a longevidade, sobretudo quando concluem que esta não depende única e exclusivamente de expressões genéticas. Fica logo de parte a ideia de "destino", algo que é alheio à nossa vontade e cujo desenlace não podemos alterar de todo.

Já no post "Elixir da Juventude", eu tinha abordado esta temática e os estudos realizados em populações de diferentes pontos do globo cujo número de idosos com idades acima dos 80 anos, de boa saúde e que permaneciam activos era bem maior que o apresentado pelas estatísticas.

Retorno ao tema apenas para o reforçar, uma vez que, em Espanha, foi estudada uma família cujo patriarca faleceu recentemente com 114 anos ( na altura do estudo tinha 113 ) e envolveu ainda o irmão com 101 anos e as filhas com 81 e 77 ( umas jovencitas, portanto... ).

Para além da constituição óssea do Sr. Joan Riudavets, foram avaliados os seus hábitos alimentares e de exercício físico, a "qualidade" dos seus genes e inclusive os factores ambientais da região que habitava.

Os dados obtidos encaixam-se perfeitamente naqueles reunidos pelos estudos a nível mundial. Assim, não foram encontradas mutações nos genes KLOTHO ( associado a uma boa densidade mineral óssea e, portanto, ossos saudáveis ) e LRP 5 ( associado, por sua vez, à longevidade ) do Sr.. Joan ou dos seus familiares.

Constataram ainda que nunca abandonou a dieta alimentar conhecida por  mediterrânica ( muitos vegetais, fruta, azeite, leguminosas, peixe, vinho,... ) e que aos 112 ainda ia de bicicleta cuidar do pomar da família ( exercício regular de baixa intensidade ).

Não se pode descurar a ausência de níveis elevados de stress nem o clima temperado das Baleares.

Coincide ainda o facto destes "jovens" habitarem regiões mais ou menos rurais, com algum afastamento das grandes cidades e onde as interacções sociais são também mais estreitas.

Mais uma vez fico a pensar no papel que podemos desempenhar conscientemente na nossa longevidade ou, então, no aumento da nossa qualidade de vida.

Será que ainda vamos a tempo de mudar?

 

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Pensar em português

por Torradaemeiadeleite, em 12.02.08

Entusiasmo-me sempre que leio boas notícias sobre a investigação científica portuguesa, desta vez no campo da genética. 

O investigador português Henrique Veiga Fernandes  ( presentemente em Londres ) ganhou uma bolsa de 1,9 milhões de euros e regressará a Portugal para desenvolver o projecto que mereceu este financiamento.

Asssim, espera-se que contribua para a compreensão do papel do gene RET na função e desenvolvimento dos linfócitos, agentes fundamentais do nosso sistema imunitário. Suspeita-se que, sob acção de mutações ou em funcionamento deficiente, aquele gene se torne causador de leucemias e doenças auto-imunes; tem que se perceber o como, quando e porquê.

 

Parabéns e bem-vindo!

 

P.S.: para saber mais pormenores clicar aqui.

 

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