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Fotografia de TorradaeMeiadeLeite. Janeiro 2020.
A neblina estendeu-se devagar. Trouxe uma aragem fresca e anoiteceu mais cedo. Pouco depois deste instante, uma raposa da cor deste monte nesta hora, atravessava o caminho. Rápida, a hora recolhe ao dia seguinte.

Fotografia de Torradaemeiadeleite. Agosto 2019.

Fotografia de Torradaemeiadeleite. Dezembro 2017.

Fotografia de Torradaemeiadeleite.

Fotografia de Torradaemeiadeleite.
Eu subiria até o ar me faltar e o azul saturado ceder sob a mudez do espaço negro.
Aí eu me quedaria, no colo imenso da inconsciência, para que o segredo da morte soprasse em meu ouvido a sedução do que é inexplicável.

Fotografia de Torradaemeiadeleite. Fevereiro de 2017.

Fotografia de Torradaemeiadeleite.

Fotografia de Torradaemeiadeleite.

Fotografia de Torradaemeiadeleite.
"With the twilight breaking through
It's a different kind of blue"
( retirado de "A Different Kind of Blue" de U2/Brian Eno, álbum Passengers de 1995 )

Fotografia de Torradaemeiadeleite. Castro Laboreiro, 2008.

Fotografia de Torradaemeiadeleite.

Fotografia de Torradaemeiadeleite.
Os intervenientes são essencialmente os mesmos e a linguagem que partilham veicula afinal as mesmas impressões, todavia os campos da sintaxe denunciam a era desta reflexão, esta escrita e a sua forma moderna não pertencem a todos os tempos, só a aspiração do registo - cotejar com o tempo universal e ser veículo de interpretação e perpetuação.
É possível encarar o Sol da origem e o recorte repetido da paisagem que sustém as raízes deste dia, as cores e as linhas erodidas que desenham o velho horizonte, o solo a estalar, como as plantas geladas, debaixo dos pés, que não são todavia as únicas figuras cristalizadas nas sombras perenes do arco baixo de luz; é possível, com todo o corpo, elencar o que se manteve imutável na paisagem até hoje e arriscar o que será diferente.
Sem o calor do sangue, porém, toda esta terra não seria mais do que as suas esculpidas formas milenares, as suas reiteradas gerações de carbono, muitas mais vezes certas do que erradas e dos erros ainda aproveitando as promessas dos melhores e dos mais aptos. Mas nem mesmo isto seria se não houvesse consciência e dúvida razoável para interpretar e exprimir, isto e o tempo, que cinzela todas as matérias, a da consciência inclusive.
Com afluentes de vária ordem que o caminhar livremente pode proporcionar, forma-se a constatação de que é breve o período terreno para perceber e presenciar tanto que se revela ante nós e de como, apesar da explosão da consciência e da técnica, não nos situamos ainda além do que é meramente superfícial.
Reflui o caudal deste rio que é o pensamento para se aproximar da origem da paisagem e para que alguém repita que nas horas especulares desta que é imprimida, os homens da pedra e do fogo, os homens do bronze, os homens do ferro que aqui moraram, detiveram o seu afã e renderam os seus sentidos e a sua razão ao que era à sua volta - uma imensa pergunta de terra e de gelo, sombra e céu, ossos e coração.
As vistas navegando ao largo foram, e são, tão essenciais à vida como a urgência instintiva da sobrevivência, e procurando respostas, e no correr imparável de novas perguntas, os homens alteraram o relevo do solo que estala e as plantas ciclicamente geladas aproximando os seus mortos dos candelabros celestes. Não é debaixo da terra que a luz nos invade e eleva. A luz, sempre a luz, que interromperá a incomensurável noite.
Aos mortos o posto mais alto, aos mortos a autorização para se individualizar da matéria e da multidão, aos mortos a entrega de muitas dúvidas na esperança de que eles nos devolvam respostas que não alcançamos vivendo.
Contra os factos académicos pode argumentar-se que, afinal, entre o perene e o efémero e entre o sensível e o racional, não haverá maior distância do que aquela que une as letras de um mesmo alfabeto que revisitamos e exploramos sempre que nos detemos perante a imensa pergunta à nossa volta.

Fotografia de Torradaemeiadeleite.
A quietude chega envolta em farrapos de neblina que os ventos da raia arrastam, agiganta-se nos brilhos silentes do poente e, eterna, renova-se.
O planalto, nesta quietude, sabe da água a correr nos veios e sabe da terra marcada em contra-luz pelos ritmos dos últimos vigilantes.
O planalto traz o tecto do mundo para os dedos das mãos. O tecto do mundo é frio e grave.
Tudo respira ainda entre as pausas dos ponteiros do relógio - nada se excede e nada fica aquém daquilo que deveria ser.

Em Castro Laboreiro temos cafés geograficamente centrais mas nenhum patronimicamente "Central". Nas mesas dos nossos cafés geramos conversas, batotices e estados futebolísticos, geramos mitos e chistes, mas também geramos crenças em futuros despovoados. Futuros como os nossos caminhos, as nossas eiras, os nossos montes e os nossos estendais. Despovoados.
É também nas mesas dos cafés que Castro Laboreiro tenta reinventar-se, principalmente com o turismo, com os "de lá de baixo" e com os galegos, com todos aqueles que tantas vezes gostariam de encontrar aqui, para além da natureza arrebatadora, aquilo que muitos de cá preferiram esquecer e perder - a cultura portuguesa nem sempre foi o guardador das diferenças que agora urge abraçar, reabilitar e assumir como nossas. Essa "cultura" e muitos dos seus intervenientes foram preconceituosos durante demasiado tempo e nós mesmos, os castrejos, atarefados na adaptação e na assimilação do que é de outros, fomos diluindo cada vez mais a nossa identidade nesse seguro e conforme mar da igualdade cultural. Aprende-se cedo que, na maioria das vezes, ser diferente dos outros não é fácil nem confortável.
Hoje em dia, esta terra raiana é em si mesma um coração que recebe temporariamente, em cíclicas e ritmadas pulsações, muitos que precisam de oxigénio e de descanso e bombeia para as distâncias do Mundo o seu próprio sangue, forte e novo. É assim que, além-mar e além-terra, há castrejos geradores de rendimentos e de sonhos, geradores de saudades e geradores de descendência que volta uma vez por ano às mesas dos cafés onde muitos avós não chegaram a conviver porque estes cafés não são antigos.
Saio do café para um outro gerador de centralidade, aqui neste meu lugar, quando o central se refere àquilo que não é marginal. Sento-me à mesa que a vista me oferece a partir de um dos pontos abertos e desimpedidos. Não é, portanto, marginal todo o território fragoso e monumental que susteve, protegeu mas também alienou um modo de vida e uma forma de ser. Como não foi marginal a vontade de partir para onde o trabalho dava proveito. Partidas que melhoraram as nossas condições de vida e mudaram irrevogavelmente o modo de aqui existirmos. Foram-se os homens e foram-se depois as mulheres, e foi quando as mulheres partiram levando os seus filhos que o futuro castrejo passou a ser, ele sim, marginal.
E quase tudo isto se percebe mirando bem a paisagem e sentindo a inclemência dos climas de maior altitude. Depois, percorrê-la a pé para lhe tomar de perto mais cores e idiossincrasias. Só que é com este mesmo exercício, e à luz do que se viu e se aprendeu noutras paragens, que ainda ouso ter esperança na reinvenção sustentável deste território e na preservação da nossa fala e das nossas memórias.
E assim, à mesa deste "Central" com vista desconcertante, leio a promissora revista Gerador em Castro Laboreiro. Gerador de amor à cultura portuguesa, diz o número um. Faz sentido, mesmo tratando-se do amor.
Castro Laboreiro é cultura portuguesa e precisa mais do que nunca de acreditar na sua permanência, no seu futuro, mesmo quando os dias são de tormenta - não, sobretudo quando os dias são de tormenta.
Este tempo português é o de sair: saem as pessoas, sai a confiança no país, sai o ânimo para o exílio. Mas há os que ficam e os que chegam pela primeira vez. E há os que voltam. Que haja sempre os que, de algum modo, voltam. Todos geradores de vontade de mudar e de, na mudança, gostarmos de ser portugueses.
À espera do próximo número Gerador e entre amores e reflexões.