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Fotografia de Torradaemeiadeleite. Julho 2018.
Da entrevista de Ana Sousa Dias (ASD) a Claudio Magris (CM), revista LER nº130.
"(ASD) : Defende "um verdadeiro Estado europeu", defendeu-o aliás quando discursou na entrega do Prémio Europeu Maria Helena Vaz da Silva...
(CM): ... sim, um verdadeiro Estado, como o Estado italiano, ou o francês, ou o português.
ASD: Acha mesmo que é possível criá-lo? Não é uma utopia?
CM: Uma utopia não é necessariamente uma coisa abstrata, ingénua. Para mim, a utopia é uma necessidade muito realista. É como o caçador que para matar a lebre tem de apontar para dois metros à frente, porque só se nos projetarmos para diante podemos atingir os objectivos.
Creio na necessidade de uma utopia razoável, irónica. Não podemos limitar-nos a obedecer à chamada "realidade". Porque o que nós consideramos realidade, todos nós, é a realidade mais recente, a última, imutável. Do ponto de vista psicológico, somos todos conservadores cegos. Não acreditamos realmente que o mundo, tal como estamos habituados a vivê-lo, possa mudar."
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"(...) O Orçamento, corolário de uma inclemência ideológica lancinante, anuncia uma era de trevas. É o réquiem pela III República. É um Orçamento que concretiza o desmantelamento acelerado do Estado social construído em e pela democracia. Isto, em si, não é apenas uma tragédia portuguesa mas, em primeiro lugar, um ruidoso fracasso europeu. Com efeito, destrói-se de forma duradoura, num curto espaço de tempo e com a legitimação da "Europa", o que foi construído em mais de 30 anos com a ajuda da mesma "Europa". (...) Na construção como na demolição, os maiores sonhos e as maiores loucuras em Portugal têm e tiveram as oportunidades e os limites permitidos pelos interesses dos nossos fiéis amigos estrangeiros.(...)
O resto, ao nível interno, são as fraquezas seculares de Portugal e as continuidades, de tempo longo, que regressam na actual legislatura com um vigor descaradamente revanchista, após um alegre e espalhafatoso passeio pós-revolucionário de Portugal pela "Europa"."
Pedro Rosa Mendes "Portugal finis terrae" - revista LER nº120, Jan 2013.
Fotografia de Eduardo Gageiro.
Sempre que morre o corpo dum ser literário suspiro também pelas frases que ficam por nascer, pela beleza que ficará informe na poeira do nada. Continua eterna porém a alma do que deixou construído e é nessa beleza que me aninho em conforto.
A surpresa da morte de Manuel António Pina aquietada com as palavras que deixou na entrevista para a LER de Janeiro último.

Vale a pena determo-nos no número anterior da LER ( já está nas bancas o nº de Setembro ) nas páginas sobre o debate entre Mario Vargas Llosa e Gilles Lipovetsky. Realizou-se no Instituto Cervantes ( Madrid ) em Abril passado e interessaram-me muito as suas diferenças de opinião e argumentações. Foram diversos os temas abordados: o papel da alta cultura, a "civilização do espectáculo", os dilemas da democracia, a violência nas cidades, o desaparecimento do cânone ou ainda a fé nos homens.
Saliento aqui o ponto da concórdia entre ambos sobre o papel da escola na sociedade moderna e a necessidade de reformar os programas de educação:
"A sociedade de consumo não conseguiu transformar o Homem em alguém que só se interessa por marcas. Os homens continuam a querer fazer algo com as suas vidas. Este é o papel da escola. (...) A educação pode agir e é um dos grandes campos dos trabalhos para o século XXI. Porque a sociedade não vai ser só técnica e ferramentas; será composta por homens, armados, armados nas suas cabeças, nos seus desejos, nas suas intenções. E a escola deve ajudar os homens a consegui-lo."
Gilles Lipovetsky, revista LER nº115 ( Julho/Agosto 2012).
"A educação é uma das grandes ferramentas da sociedade actual, tal como o são a família e o indivíduo.(...) A principal crise da sociedade moderna é a inexistência de sistemas educativos que unifiquem o que devem ser os seus dois objectivos fundamentais: a criação dos técnicos e profissionais de que necessita e o preenchimento dos vazios no campo espiritual.(...) À superfície, as discrepâncias podem ser numerosas mas, a um nível profundo, acredito que todos - ou, pelo menos, eu e Gilles - estamos de acordo em que... há que ler Proust, há que ler Joyce, há que ler Rimbaud, em que o que fizeram Kant ou Popper, o que Nietzsche pensou, são também coisas valiosas nesta época e podem ajudar-nos a redesenhar esses programas de educação, dos quais depende que a sociedade do futuro seja menos violenta e menos infeliz do que é a de hoje."
Mario Vargas Llosa, revista LER nº115 ( Julho/Agosto 2012 ).

"Reading Girl" de Gustav Adolph Hennig (Alemão, 1797-1869).
Depois de ter acompanhado estes vídeos no sítio da LER ficou-me como um eco a frase "ler é escrever" que coincidentemente três dos intervenientes responderam ( no primeiro vídeo - Ana L. Amaral, Jaime rocha e Manuel A. Pina ). Claro, claríssimo.
Nunca o tinha concretizado desta forma mas no acto de ler somos também "escritores": tecemos pormenores que incluimos no que nos é apresentado, perpetuamos as palavras e frases que gostamos, gravamos também as que não gostamos, compomos cenários alternativos, representamos papéis, evocamos memórias e outras leituras.
Como diz Luis Sepúlveda "todos lemos de maneira diferente", o que para mim vai agora lado a lado com a constatação que "ler é escrever" e por isso mesmo um livro pode ter afinal múltiplos escritores. E não é múltiplo em si próprio o leitor ao longo da vida? Não se transforma um livro com a caminhada do leitor? Claro, claríssimo.

Uma iniciativa da revista Ler que desafiou os leitores para a criação duma frase dedicada aos livros/leitura. Criatividade vencedora para ostentar numa T-shirt.

Fotografia de Torradaemeiadeleite.
Gosto da LER e não é uma qualquer a revista que é passeada, lida e arejada nos ares do meu planalto e não é qualquer a edição que pode gabar-se de roubar os meus olhos a esta natureza a 1300 metros de altitude, tão fronteira e tão primeira.
A edição número 101 andou por onde veem, numa tarde de bom tempo, fresca. Só me apetecia adiar a volta para casa e ficar aqui sentada, encostada ao marco, introspectiva e leitora. O caminho para gastar era ainda longo, vagaroso, pedregoso e ermo, daqueles que serpenteiam o paraíso e o protegem das invasões.
Uma esperança, contudo, me renova: vêm aí os dias mais longos, vêm aí mais páginas da LER, e então talvez cumpra este destino de unir num só abraço dois amores tão perfeitos.