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Liberdade, um retrato a cores

por Torradaemeiadeleite, em 25.04.15





Liberdade. Celebrar-te com as botas gastas e descoradas das meninas da fanfarra, que da cor branca pura passaram a cinzento, ao baço brilho e viço perdido. As cores da corporação não auguram horas saturadas de ânimo, antes a lonjura desse teu dia que será cada vez mais reclamado. Desfilam ao som da cerimónia.

Liberdade. Não trazias tu no teu peito a força dum emblema-flor, o vermelho transbordando dos silêncios finalmente rendidos? Na vez de balas, a explosão das vozes e das armas apontando corolas e a união que ninguém poderia jamais voltar a vencer, eras tu, não eras?
A tua cor continua num fio desde essa madrugada de Abril até este branco puído das botas das meninas da fanfarra, que não sabem que a liberdade também está nos seus pés e segue arrastada nas capas e meias-solas há muito devidas, que vai com o som dos passos que se condoem a compasso, quando o que fazia falta era ir mesmo no grito que alguém soltasse a dizer do estado do calçado que a Liberdade usa. O rapaz da corneta anuncia o fim da desfilada e o princípio do engano. Discursam.
A tua cor chega desde essa quinta-feira clara, mas não no anil do céu low-cost ou da albufeira tardia do Alqueva, nem nos lenços amarelos dos coros que ecoam as profundezas do ser, os corpos unidos numa cadência interior que hoje não conhece fronteiras nem precisa de tradução. Chega, sim, no azul ímpio dos mares onde se afogam as esperanças, na cor da bandeira com círculo de estrelas esquecida de si mesma e do seu verbo, vem na cor dum litoral cada vez mais distante do Sol que se põe atrás dos montes da nossa incompreensão.
A tua cor inefável continua hoje, discretamente igual à dos olhos das crianças que têm fome neste tempo de abundância, discretamente igual à dos corações apertados dos pais que não vislumbram dias mansos para os seus filhos e discretamente igual à cor da pele de todas as mãos que, em garra sobre as pernas, se acham perdidas de utilidade e transidas de esperas vãs.
Ainda não chove. A fanfarra recebe o diploma. As botas gastas permanecem em formação.
A tua cor, liberdade, feita de muitas cores, é hoje um estandarte agitado ingloriamente por figuras que não te conhecem, que não sabem do que és feita e para o que foste feita, os mesmos que pretendem, mesmo na tua celebração, obnubilar os dias de quem te quer, usando como armas o medo, a culpa e o esquecimento.
Eras tu, Liberdade, que combatias o medo, a culpa e o esquecimento, não eras? Fizeste-o desobedecendo, saíste da formação e levavas as armas sem balas na câmara. Agarraste o cravo rubro que a senhora te estendia e a essa cor juntaste a mais bela, aquela que a esperança tem quando um peito aberto não teme as balas.
Isso foi naquele dia, o do princípio da possibilidade. E hoje, que tom queres dar ao retrato que eu te pintei?




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As asas servem para voar

por Torradaemeiadeleite, em 25.04.14

 

Gravura de Albrecht Dürer, 1512.

 

 

Aqui está uma casa iluminada num promontório obscurecido, que tem palavras imóveis no momento em que deveriam sair, a adiarem indefinidamente os seus passos, privando-se de circular mundo afora até que o cansaço as esgotasse, ou a vontade as saciasse. Mudas, paralisadas, sincopadas, na soleira da porta da casa que resplandece.
Precisarão de energia, uma forma qualquer de energia que seja eficaz para resolver desacertos de movimento. Até empurrá-las servirá, a pontapé irão, ameaçadas com castigos antigos, riscadas em azuis, torturadas. Terão de ir porque ficar é um despropósito. Estáticas, congeladas, catalépticas. De que serve podermos sair se não nos aventuramos para lá da soleira da porta?

Estão cegas pela escuridão, é isso, ou então será um vento forte ou uma chuva invisível sem tino que arrepiam mais porque só são sentidos por dentro; detidas aqui na porta, mas desejando uma oportunidade para caminhar.
Algo mais, porém, me
desconvence destas hipóteses de imobilidade e levo-me a espreitar para além delas e nenhuma razão palpável acolhe os louros da impossibilidade que me arrelia.

Procuro então outros motivos, outros que talvez lhes atenuem a culpa de não se mexerem, outros que não precisam de corpo para se manifestarem e existirem.

Sinto que estão muitas outras palavras lá fora, invisíveis após tanto desgaste e mau uso, teimosamente avolumando-se como um ar pesado que não vemos mas ocupa todos os lugares, palavras destituídas de poder e empoleiradas umas nas outras. E saudosas. Palavras em desuso e remetidas para a memória. Inconformadas. Palavras que ninguém quer voltar a ouvir e palavras abandonadas. Estão encurraladas à porta de uma casa que não quer readmiti-las e rejeitadas por um mundo que quer progredir. Ocupam uma área de eterna transição. Não podem entrar e não querem deixar sair.

Há ainda outra hipótese, menos evidente e mais abstracta que explica o inusitado fenómeno da casa iluminada com palavras que não saem. Acredito que pode nem haver chão para lá da porta e será a evidência duma queda livre sem fim à vista que torna as palavras angustiadas, a certeza do embate que espalha a sua densidade e multiplica o desvario da queda, que faz das palavras umas temerosas súbditas da morte e da incompreensão, que são uma e a mesma coisa no mundo verbal. E assim, desejosas de escapar mas manietadas pela incerteza do que será ainda, não avançam para lá da soleira da porta, tementes duma força invisível que deixa lastro mesmo quando ameaça afundar-se de vez.

Eu quero construir-lhes umas asas. Se não há chão seguro para pisar, invente-se alternativas para sair. Cada uma das palavras teria modo de escapar à queda com voo impressionante, descoberto efeito planante, só para que renasçam do lado de fora da sombra de si mesmas.

E atentemos: que não espante a ausência de chão que provocou esta invenção escrita. As casas das letras são construções inusuais. Tenho mesmo por evidência segura que crescem em altura mais do que muitas outras construções pensadas como sólidas e inabaláveis, imutáveis - alongando-se dos seus alicerces, vão até aonde a gravidade não pode ter qualquer acção sobre as coisas, aonde as palavras alcançam transcendência e perdem o medo de cairem num fim ou embaterem nos atavismos da História.

A casa das palavras deverá ser livre para seguir a inacessibilidade das alturas do pensamento.

Muitas palavras são caladas, ameaçadas, ignoradas, humilhadas, desmembradas. Mas a liberdade tem asas de perseverança, e as asas, as asas servem para voar.

 

 

 

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Capitão Fernando José Salgueiro Maia

por Torradaemeiadeleite, em 25.04.13

Fotografia de Alfredo Cunha - 25 de Abril 1974.

 

"Meus senhores, como todos sabem, há diversas modalidades de Estado. Os estados sociais, os corporativos e o estado a que chegámos. Ora, nesta noite solene, vamos acabar com o estado a que chegámos! De maneira que, quem quiser vir comigo, vamos para Lisboa e acabamos com isto. Quem for voluntário, sai e forma. Quem não quiser sair, fica aqui!".

 

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O Abril da Revolução

por Torradaemeiadeleite, em 25.04.09

 

 

Fotografia de Eduardo Gageiro, 25 de Abril de 1974.

 

 

Vou espreitar fotografias  e relatos na Rádio Renascença.

 

 

 

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