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Em Setembro de 1977 a Voyager 1 foi lançada no espaço com o propósito de estudar o Sistema Solar e o espaço interestelar. Encontra-se presentemente ainda em missão e a transmitir informação para a Terra.
Guarda dentro de si uma cápsula do tempo que Carl Sagan, com uma vasta equipa, preparou com vista a apresentar o nosso planeta e a espécie humana às prováveis formas de vida que poderiam encontrar a nossa sonda espacial. De entre muitos factos e preciosidades, destaco o conteúdo do disco de ouro com referência aos sons da Terra.
Está lá também o bater do nosso coração.
Algures, dizem mesmo que já fora do nosso Sistema Solar, vão as nossas emoções e a esperança num futuro bom que a nossa espécie perpetua, apesar de tudo. Seguem sem destino marcado, como acredito que a vida deverá seguir.

Poucos nomes se podem orgulhar de estarem associados a acontecimentos marcantes da história humana. Na verdade, do modo como eu penso, as mais insignificantes contingências e banalidades são também importantes neste percurso, mas aqueles momentos que dividem o tempo em "antes de" e "depois de" serão sempre o exemplo, a prova, o mais definidor instante de uma época.
Assim entendo a "conquista" espacial - que de conquista tem certamente a sedução, por vezes muito trabalho e ainda a sonora vaidade ao pronunciá-la ( embora destituída do sentido de domínio ou de subjugação que a palavra encerrará noutros contextos ).
O caminho a percorrer no último território estrangeiro à nossa espécie será sempre marcado com bandeiras e símbolos de que a Lua é porventura o mais inspirador. E é à Lua que vou juntar um nome com perfil que assenta bem ao périplo deste texto - Hasselblad. De Victor Hasselblad nasceram as máquinas fotográficas que foram modificadas para acompanharem as missões Apollo da NASA entre 1969 e 1972, e das quais uma apenas regressou à Terra. As restantes, dum total de catorze, tiveram que ceder lugar e peso às recolhas feitas na superfície da Lua, pois todos os gramas contam para que uma viagem espacial seja bem sucedida.
A fotografia contribuiu decisivamente para aproximar as "irreais" conquistas ao olhar humano, num modo particular do ver para crer, agigantou a inspiração que tais fenómenos suscitam e libertou a percepção das nossas possibilidades. O salto sobre o abismo que a ciência empreendeu e a aproximou da comunidade não científica foi possibilitado pelos registos "fora de portas" que os astronautas legaram à humanidade, esses documentos que eu nomeio de infinitude, beleza e libertação.
A única máquina Hasselblad que foi à Lua e voltou pode ser adquirida em leilão dia 22 de Março, em Viena, na galeria Westlicht. Está obviamente imbuída de espírito, o que é notável para uma máquina, mas a isso obrigou a aura que tanta história lhe confere.
Fico-me pelas deambulações contemplativas e por este amor à fotografia, à história e à ciência, mais à Filosofia que está sempre, sempre tão discretamente unida a tudo, também a esta fotografia "à la Hasselblad".
Para sempre fã de Carl Sagan.
Para sempre uma curiosa da nossa história que implicitamente contém a do universo.
Enquanto houver terra e mar, perguntas para fazer e mundos para sonhar.

Imagem googlada.
A N.A.S.A sempre teve talento para baptizar os seus robots espaciais. O Curiosity justifica na sua graça aquilo que nos motiva a atravessar a "última fronteira". Marte e a sua exploração tem sido tema do Torrada desde 2008, quando o então inovador robot Phoenix registou uma imagem de que gostei muito, aquela da "pegada" mecânica.
Já não está em questão a existência de água naquele distante solo, isso foi plenamente confirmado. A investigação vai avançando os seus milhões de dólares ( dois mil e quinhentos milhões na missão do Curiosity ) no sentido da exploração do terreno, na procura de vida microbiana e na esperança final de enviar um humano com espírito de entrega suficiente para passar dez meses em viagem de ida, ficar por lá dois anos e voltar para contar.
O sucesso da viagem, da aterragem no passado dia seis e do estabelecimento das comunicações deste mini-laboratório de novecentos quilos, motivaram os festejos que a foto registou. Mais do que pó vermelho, braços metálicos ou pedras mudas, escolhi desta vez o lado terreno para actualizar os meus textos sobre a exploração celestial. É deste ponto de partida, da curiosidade humana, que se alimenta o trabalho duma equipa vastíssima que personifica a vontade intemporal duma espécie para entender o que a rodeia e aí interferir para benefício próprio. Consciente e inconscientemente foi esse processo que nos trouxe aos dias de hoje.

Imagem "googlada".
De vez em quando, deparo-me com notícias marcianas que vão dando continuidade ao primeiro post que dediquei àquele planeta.
O robot Phoenix ainda não renasceu das cinzas mas a velhinha Spirit, que já conta com 5 anos de missão, continua o seu labor mesmo que ironicamente os seus updates sejam fruto de desaires mecânicos. Não fosse esta sonda ter ficado presa nas areias de Tróia ( nome dado pelos cientistas àquela área de Marte e que inspira uma epopeia lírica no Espaço... ) e não saberíamos que lá se encontram restos de sulfatos e hidróxido de ferro, minerais que só existem na presença de água.
A Spirit não tem capacidade para escavar o solo como fazia o robot Phoenix mas tantas derrapagens para se libertar das areias foram suficientes para expor aqueles achados e apoiar a teoria da existência de água no subsolo de Marte.
Num planeta votado à aridez inspiram-se muitas perguntas que para já continuarão sem resposta, mesmo que se confirme que outrora a água era nele abundante. Mas terá existido alguma forma de vida? Que acontecimentos ditaram o actual rosto de Marte? Haverá condições para outro tipo de explorações marcianas? E poderemos alguma vez vislumbrar algum paralelismo entre Marte e o futuro da Terra? Bom, entro já na "devaneios zone" mas não é de todo inoportuno pensar na água do nosso planeta e no seu ( nosso ) futuro, mais ainda quando Copenhagen pretende ser Hopenhagen.
Fotografia de Annie Leibovitz para Louis Vuitton.
A pouco mais de 1 mês de se completarem 40 anos desde aquele "pequeno passo em solo lunar que representaria um salto de gigante para a Humanidade", já se podem admirar as campanhas publicitárias que aproveitam a efeméride para justificar as mais diversas tentações consumistas.
Gosto desta da Louis Vuitton, que reúne tão somente o Sr Jim Lovell ( comandante da Apollo 13 ), o Sr "Buzz" Aldrin ( piloto do módulo lunar Eagle da Apollo 11 ) e a Sra Sally Ride ( a primeira americana no espaço ).
Olham para a Lua com um ar de missão cumprida, satisfeitos e simultaneamente embevecidos. Na legenda a frase esclarecedora: "algumas viagens mudam a Humanidade para sempre". Portanto, quando o objectivo é viajar em grande ou protagonizar inesquecíveis aventuras, não esqueça a sua malinha Vuitton.
A atmosfera sonhadora da fotografia completa a mensagem ( são os sonhos que nos movem... ) e não deixei de reparar na associação curiosa de pessoas habituadas a viajar em naves e módulos lunares com a mais tradicional e genuinamente americana carripana. Muito patriótico, como todo o contexto das missões à Lua dos E.U.A.
Sabem-na toda, estes da publicidade.
Imagem NASA/JPL - Caltech // University of Arizona/ Texas A&M University
Nota: os pequenos cristais azulados no centro das três escavações são formações de gelo.
Em Junho do ano passado, escrevi nestas "páginas" a inspiração que, então uma estreante, sonda marciana me proporcionou. É agora devida uma actualização dessa missão espacial.
O estudo do planeta Marte continua, mas agora sem a ajuda da Phoenix. O Inverno marciano ganhou a batalha e silenciou a nossa exploradora... Já era esperado. A actual ausência de luz solar, que era o seu combustível, as temperaturas negativas extremas e a formação de gelo de dióxido de carbono impossibilitam o seu trabalho e talvez esta Fénix não volte a nascer das cinzas.
Em todo o caso, é de alguns sucessos que a sua história se faz pois, além da eficiência técnica e do facto de ter sobrevivido mais do que os 3 meses previstos ( a missão durou 5 meses ), deu provas concretas da existência de gelo no subsolo e também de sais de percloretos que, embora se trate duma família vasta e de valor relativo, levam a novas reformulações das teorias sobre o clima, habitabilidade e inclusive sobre a hipotética biologia de Marte.
De todos os robots que emigraram para aquelas longínquas paragens, este era o único com capacidade para "ver" além da superfície do planeta. Outros continuam então as suas tarefas de exploração geográfica como a Spirit e a Opportunity que, aliás, celebraram recentemente o seu 5º ano de actividade. Mesmo com alguns piripaicos de memória e de movimentos são um caso de longevidade e de valioso contributo para o conhecimento de Marte.
Já se discutem nomes para mais um robot explorador .
Nestes casos é assim, "a persistência é o caminho do êxito" ( Charles Chaplin ).
Fotografia de "NASA Jet Propulsion Laboratory and University of Arizona"
Esta imagem “fala-me” de muitos temas e percorre o tempo nos dois sentidos: passado e futuro.
Vemos parte duma máquina, pequenas rochas, chão poeirento e uma impressão que até se parece com uma pegada, embora não humana.
Não são muitos elementos, não mostra nada que nos leve a identificar o local, o ano ou era em que foi tirada, a hora do dia, a estação do ano,… Enfim, se parece tão limitada naquilo que a compõe porque é que me diz tanto?
Não é nenhum mistério, os mais atentos às “conquistas” espaciais não hesitam em identificá-la. Mas mais do que uma identidade eu refiro-me às questões que ela encerra.
Vou organizar, então, as ideias: a máquina é a Phoenix, a sonda da NASA que pousou os pezinhos na superfície de Marte no passado dia 25 de Maio; aquela impressão que parece uma pegada é da autoria do seu braço mecânico que vai escavar o solo de Marte para recolher amostras e analisá-las com recurso aos instrumentos alojados no corpo da sonda.
O entusiasmo e as questões sobre o espaço perdem-se na memória da humanidade. Desde a simples observação até à intervenção, não passou muito tempo ( tendo em conta obviamente a escala temporal que dita a formação do nosso planeta, o aparecimento desta espécie orgânica intrigante que somos nós e a evolução do nosso córtex motor e cognitivo… ). E não se trata apenas de conseguir pôr o Homem noutros planetas, fazer voos interplanetários e chegar mais longe que esta galáxia… Para mim é fascinante o caminho que se percorre até chegar ( sim, quem sabe? ) àquelas metas! Para mim é também fascinante a superação de obstáculos e de nós mesmos, a capacidade inventiva e a curiosidade infindável do Homem.
A exploração de Marte, ou direi melhor, o seu reconhecimento passou da teoria à comprovação prática nos idos anos 60 do século passado, com o lançamento de “engenhocas” ( as sucessivas sondas e satélites MARINER ) que orbitavam o planeta e enviavam fotografias para a Terra.
Mas não bastava orbitar o planeta e então cruzou-se a sua atmosfera, “passeou-se” na sua superfície e agora vamos escavar o seu solo a uma profundidade nunca antes explorada!
É mais um passo para tentar perceber a “anatomia”, a geologia, o clima e até prepará-lo para ser explorado pela mão humana, em vez de mãos robóticas.
E não é lícito perguntar porquê tanto interesse em Marte? Claro que sim! Para já é o irmão mais próximo de nós ( tal como a Terra e o restante sistema solar, formou-se há 4.6 biliões de anos e está já ali, a 10 meses de viagem... ), é aquele que evidencia características físicas mais interessantes, que fazem até lembrar as da Terra há muitos, muitos anos e dele chegam-nos ainda evidências da existência de água em grandes quantidades. Por fim, este último argumento leva-nos a outro deveras revelador, que é saber se já existiu alguma vez vida em Marte.
Penso que não são necessárias mais explicações. No fundo, no fundo, o que nos move é a justificação da nossa existência, é este “complexo de orfandade” ( um conceito que ouvi a um investigador português, já não me recordo qual, e que achei delicioso ), a consciência do ser, as velhinhas perguntas “quem somos, de onde vimos e para onde vamos”…
Por tudo isto me afeiçoei àquela imagem, ao seu simbolismo e àquela impressão do braço mecânico num solo árido e desconhecido. Mas também por tudo isto, prezo ainda mais esta bolinha colorida entre Vénus e Marte.