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Interior(idade)

por Torradaemeiadeleite, em 28.09.17

 

 

 

torradaemeiadeleite

 

 

 

Fotografia de Torradaemeiadeleite.

 

 

 

 

 

Retrato duma hora nova

por Torradaemeiadeleite, em 05.08.17

 

Neste regato breve que deve o seu corpo informe ao Estio, mergulhaste a minha voz inteira. Fui silêncio enquanto as ondas que os teus pés multiplicavam prolongaram a tua pele até ao centro da corrente: e os brilhos entrecortados do meio da tarde, e as libélulas em mundana agitação, e os verdes  inflamados arrefecidos pelos salpicos, tudo, tão só tudo, foi a minha voz entontecida da ausência do nomear.
O teu corpo de força esguia, filho de mim, o teu ser duma densidade intensa que já não pode pertencer-me, estiolou o perfume do húmus esmagado e das flores miúdas que roçaram a tua passagem até à água. E aonde a luz te guiou o olhar, para o poço mais quente e claro, juro que vi a matéria da atracção do mistério que encontraste - e se há pena merecida para aquele que mata um mistério, não haverá castigo algum para os que o preservam, porque o revelam naquela justa medida que o adensa.
E a hora caiu logo, mais alongada, inclinada de eixo e de revolução, para rarefeita chegar ainda aos esconsos escuros onde as trutas franzinas se dissolvem. Mas quando deixaste de as vislumbrar, viraste-te para mim e do teu rosto veio um lampejo de promessa - essa de voltar a tentar, sem temor da repetição, nem cansaço do recomeço, numa hora nova, inteira de possibilidade.


Torradaemeiadeleite

 

 

Fotografia de Torradaemeiadeleite.








Entre noite e dia

por Torradaemeiadeleite, em 17.07.17

 

A temperatura cai e denuncia a luz diurna, mas o silêncio mantém-se - a queda não move ar, nem chão - só a pele vibra essas notas inaudíveis da rotação sobre si mesma.
Mas breve, o filtro impõe-se: sublima o véu que resguarda o corpo da transição dos sentidos para a consciência.
E a cor muda, e a cor acrescenta, e a cor sobre tudo se engrandece.
E a noite muda, e a noite emudece, e o acorde puro cala-se.
Neste despertado senso, frente-a-frente com a denunciada queda, há pardais que resolvem o sobressalto - imitam dentro de seus bicos abertos o amarelo quente da certeza do dia, os estilhaços da visão estelar agora fendida.

 

 

Travis

 

 

Ilustração de Travis Bedel.

 

 

 

 

 

Meia torrada

por Torradaemeiadeleite, em 27.05.17

 

(...) Tudo corta, tudo fere. Só o uivo e o uivo só combate, ainda, onde o corpo de insónia se retorce e onde o silêncio de pedra se tinha fendido no início da manhã, de uma só vez e sem aviso.
Agora é preciso que tudo arda, inflamado de oxigénio e daquela centelha dos sentidos, para perder-se o redor que violenta, para ficar leve a ruína que esmaga um peito que se entrega à desrazão, para escapar das chamas insulares na jangada rareada de átomos. (...)

 

 

em "É Preciso Que Tudo Arda", Torrada e Meia de Leite.

 

 

 

torradaemeiadeleite

 

 

 

Fotografia de Torradaemeiadeleite.

 

 

 

 

 

Do domínio da Astronomia

por Torradaemeiadeleite, em 29.04.17

 

 

 

 

Torradaemeiadeleite




Fotografia de Torradaemeiadeleite.

 

 

 

 

 

 

O Torrada e Meia de Leite a ser ele próprio II

por Torradaemeiadeleite, em 05.02.17

 

 

 

Torradaemeiadeleite

 

Fotografia de Torradaemeiadeleite.

 

 

 

Domingo

por Torradaemeiadeleite, em 15.01.17

 

 

E o dia veio enroscar-se no interior: da casa, de mim, da veemência de Janeiro.

 

 

Torradaemeiadeleite

 

 

Fotografia de Torradaemeiadeleite. Janeiro de 2017.

 

 

 

 

 

É preciso que tudo arda

por Torradaemeiadeleite, em 20.12.16

 

A presença toda diluía-se e condoía. Permeável ao redor arruinado, friável, era posse tanto duma dor adentrada quanto da isolação que dela transbordava. Talvez por isto a forma era insular, rodeada de si mesma e ameaçada de horizonte infindo.
Correspondia-lhe o uivo magro e enegrecido da matéria esboroando-se, ganido de ultraje e de loucura, que para aquela presença o espanto era o de ainda ser e, para ela apenas, a iniquidade de um torpe ser.
Da diluição sobressaíam no soalho carcomido os estilhaços de vidro, requebros das luzes entontecidas e alheios àquele sofrer, somente agentes falhados e caídos - contudo, émulos ainda deslumbrados do firmamento antigo que tudo abarcava sem afecção ou contágio. Do que sangrava, nada sabiam.
Tudo corta, tudo fere. Só o uivo e o uivo só combate ainda, onde o corpo de insónia se retorce e onde o silêncio de pedra se tinha fendido no início da manhã desse dia, de uma só vez e sem aviso.
Agora é preciso que tudo arda, inflamado de oxigénio e daquela centelha dos sentidos, para perder-se o redor que violenta, para ficar leve a ruína que esmaga um peito que se entrega à desrazão, para escapar das chamas insulares na jangada rareada de átomos. Que tudo arda também durante a deriva, no tempo justo e ncessário para cair, enfim, na primeira brecha do horizonte.

 

 

DSC_6255

 

 Fotografia de Torradaemeiadeleite.

 

 

 

 

A verdade sabe a pão com manteiga

por Torradaemeiadeleite, em 21.10.16

 

 

Na mesa do lado escreveu-se no ar a sentença: toda a vida a aprender e morremos sem saber nada. Que tatuador nos imprime na derme esta tinta das horas lúcidas? Destas horas ainda com gosto de manhã lêveda, estremecimento outonal,  com arrepio de conforto quando o limiar da porta é transposto, com o clarear da vista que a noite tinha até agora protegido sem desígnio nem intenção próprias.
A verdade veio e sabia a pão com manteiga na boca da fome, enroscou-se em mãos aquecidas de café e leite. Reflectida depois nas vidraças que separam essa lucidez instantânea do resto dos nomes que podem ser emprestados ao mundo, silenciou-se apenas quando a porta voltou a abrir.
Atingiu, de algum modo, o fim escondido na sua breve revelação: da mesa do lado veio como uma sentença, mas a verdade alcançou a rua como se fosse um Sísifo, outro que, em gestos maviosos e mornos de benevolente compreensão, acaricia o rude peso da sua razão de existir.


 

 

DSC_2153torrada

 

Fotografia de Torradaemeiadeleite.




 

Poente

por Torradaemeiadeleite, em 02.06.16

 

 

A sombra caiu, rápida e densa de humidade. Tocada pelo vento, ela veio sem agressividade, mas determinada. Deixou ainda a luz prender-se ao sentimento de gestos leves, como os das ramagens, como os dos voos que se recolhem, porém, sinceramente despedidos, esses gestos diluíam-se cada vez mais.
E aconteceu-lhe assim, encostado na parede baixa, tosca, de ângulos irregulares, ser apenas figurino de sustentação - ali esperou e se demorou como nunca antes. Poucas vezes a luz lhe inflamara o olhar como nesse instante intenso que precedeu a total penumbra. Viu os raios mais baixos do Sol ao comando da chuva e a acentuação das cores, saturadas desse filtro aquecido. Notou o último afago aos olhos que só às estrelas maiores compete fazer e definir.
Não desenhou qualquer gesto de assombro ou inquietude. Valia tão só o momento daquela chuva a iniciar-se sobre o seu corpo para ver, na distância, onde a negrura tardava ainda a chegar, um beijo de poente a prolongar a sua despedida e, com os dedos insensíveis, perceber enfim o gelo da própria finitude.

 

 

 

Torradaemeiadeleite

 

 

Fotografia de Torradaemeiadeleite.





 

Urbanidade marginal

por Torradaemeiadeleite, em 27.05.16

 

 

 

Torradaemeiadeleite

 

 

Fotografia de Torradaemeiadeleite. Porto, Maio 2016.



 

 

 

O Torrada a ser ele próprio

por Torradaemeiadeleite, em 06.05.16

 

 

 

Há nove anos.

 

TorradaMeiaDeLeite

 

Fotografia de Torradaemeiadeleite.


 

 

 

Condenação

por Torradaemeiadeleite, em 29.04.16

 

 

 

Entre escolhos, navegamos as marés sem mapa, certos apenas da incerteza abissal.
Na amurada, sentimos as vagas que gelam a temeridade.
Confirmamos a ausência dos fogos no lar da noite e antecipamos:
tudo pronto para nos atirarem, ainda a respirarmos, para um mar de impossibilidade que coagula a nossa compreensão.


 

Torradaemeiadeleite

 

Fotografia de Torradaemeiadeleite.




 

 

 

Materializar

por Torradaemeiadeleite, em 21.04.16

 

 

 

 

torrada

 

Fotografia de Torradaemeiadeleite.

 

 

 

Esta é a circunstância que traz à primeira página a relevância dum acto inaugural: os meus olhos na escrita que se faz para lá de um papel e, impressos de estímulos actuais e distantes, a depositarem nas mãos a realização de um existir pessoal e humano.
Inesgotável, experimental, denso mundo de mim - quero tantas vezes gritar para que saibas que eu estou aqui, somente porque me pasmo com o desperdício que será o do sentimento que não se expressa singular à tua consciência.
De ti para mim ou de mim para ti, chamo-te mundo apenas porque tens uma dimensão fora do meu corpo, mas é tão presente este diálogo que, intemporal, alimentamos, que dizer da tua consciência é redundar sobre a minha. Talvez por isto, quando te grito é a mim própria que o faço, mas não sei o que responder ao abalo que me inquieta e insiste.

 

 

 

 

 







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