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Apontamentos duma viagem - O quarto ( e último )

por Torradaemeiadeleite, em 07.08.09

 

 

                                              Fotografia de Torradaemeiadeleite ( Bragança ).

 

Haverá muitos epílogos para esta jornada. Este escreve-se à mesa, na comunhão de sentidos e estados de alma.

Mesmo no canto da sala, junto à janela aberta para um jardim interior timidamente iluminado e enredados na decoração solarenga, trocámos impressões e revisitámos as horas do dia. Que breve pareceu.  Um privilégio tê-lo vivido.

O pão com azeite fintava o cansaço, marcava o ritmo das palavras e, pouco depois, o vinho predispunha para o sonho. Multiplicar tempos assim, aligeirar os grilhões do dia-a-dia, ser mais donos de nós mesmos.

A música clássica roçava as partículas de ar quase pedindo licença para se movimentar e preenchia o silêncio que levava de uma memória a outra.

O soalho de madeira gemia, teimava de vez em quando em sobrepor-se às delicadas notas. Mas nada abafava o meu pensamento. Voltar, voltar sempre. Aos lugares, aos sentimentos, ao interior de nós mesmos, ousar ainda voltar ao dos outros.

Viajar, de muitas formas, viajar.
As pequenas asas batendo nas lâmpadas do jardim, a luz que sempre se procura. Os aromas dispersando-se e o tacto e os gestos que nos fazem humanos.

 

 

 

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Apuntamentos dua biaige - L terceiro

por Torradaemeiadeleite, em 06.08.09

 

 

   Fotografia de Torradaemeiadeleite.

 

Alhá atrás deixámos Sendin i Dues Eigreijas. A la nuossa frente yá ne ls speraba la formosa Miranda de l Douro, cul cuorpo stendido al sol de l meidie.

 

Duma tela widescreen parecia irromper a luz mirandesa. Entre mim e os desígnios de Apolo apenas um chapéu. Uma luta desigual mas auspiciosa. Comprei-o em Miranda e tinha pronúncia espanhola. A invasão continua mas agora nem o Menino pode milagrar a vitória portuguesa. Outrora deu ânimo aos que se defendiam do cerco prolongado e na lenda ficou a sua invulgar cartolinha. Dele a cartolinha, de mim o chapéu com provas ainda por dar.

Compreendo esta persistência de nuestros hermanos pois  é mirando-te da fronteira, oh bela! que me rendo ao teu encanto.

Alta e espirituosa, Miranda confia ao  planalto o viver das suas gentes. Serpenteia a seus pés, murado por fragas nuas e acidentadas, o Douro em espelho de abismo. Não posso deixar de imaginar como seria o seu leito e quão maiores pareceriam ainda as suas arribas se o homem não o tivesse domado.

Alta e vaidosa. Fica-me na memória o recorte do casario e da Sé encimando um grandioso pedestal de granito.

Teço desejos de a rever, quem sabe sob o manto do Inverno, no solstício  acompanhada pelo singular canto das gaitas de foles.

 

Ah guapa, que pequeinhas fúrun las horas para te coincer!

 

 

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Apontamentos duma viagem - O segundo

por Torradaemeiadeleite, em 01.08.09

 

 

 

 Fotografia de Torradaemeiadeleite.

 

Seguíamos o percurso traçado vencendo cada quilómetro da estrada nacional com a admiração de quem tudo vê pela primeira vez. "(...) We're free to fly the crimson sky/ the sun w'ont melt our wings tonight(...)".

De Mogadouro ainda nem um vislumbre, que a paisagem é aqui a dona dos nossos olhos e contrapõe-nos primeiro subidas e descidas, curvas e contracurvas e só depois nos oferece um panorama a 360º, o lenitivo merecido.

O perfume da esteva acompanhava-nos fielmente e nas breves paragens à beira da estrada outros odores florais se acentuavam, imprecisos, mas compondo um bouquet inegualável.

A vista pousava sobre os olivais e sobre os vinhedos, nos campos ceifados e nos carrascais,  notava os terrenos abandonados cobertos de giestas e espreitava, lá em baixo, os cursos de água minimizados.

 

Eis a vila, onde Mogadouro antigo e novo se vão encostando aparentemente sem ressentimento. Optámos por demorar na parte mais antiga. Guardei detalhes de casas seculares, do pelourinho e da capela, mas foi no recinto da Torre que entreguei o meu olhar: uma manta de retalhos, de cores variadas, estendia-se em redor até ao horizonte distante, cobria  relevos ondulantes e contrastava com um céu grandioso, absoluto, imaculadamente azul. E a brisa refrescava-nos. Tão próximos da perfeição.

Antes das despedidas, uma pausa para a fiel cafeína e depois, já em movimento, continuou o nosso amigo: "(...) no, no line on the horizon/ no, no line(...)".


 

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Apontamentos duma viagem - O primeiro

por Torradaemeiadeleite, em 28.07.09

 

           Fotografia de Torradaemeiadeleite

 

Charles Aznavour cantava "(...) a corps perdu, j'ai couru/ assoiffé, obstiné/ vers l'horizon, l'illusion, vers l'abstrait/ en sacrifiant, c'est navrant/ je m'en accuse à présent/ mes amis, mes amours, mes emmerdes (...) ".  A viagem nascia para ser diferente de outras. Todas as viagens nascem com essa expectativa. As melodias seguiam-se na pronúncia gutural dos seus poemas e ocupavam o habitáculo para escaparem depois pelas janelas abertas. Este outro francês rugindo sobre rodas não sabe do ar condicionado, leva-nos só em conversa íntima com a estrada para ir aonde nunca tínhamos estado. Um quase maquinismo do tempo.

A paisagem revela-se em película cinematográfica antiga e desfila depois sob o foco dos projectores. O Sol a subir inclemente, as sombras cada vez mais pequenas. Os actores deste filme não ficam na sombra.

Imensidão, a imensidão. Nenhuns olhos poderão abarcar tanta lonjura num passar breve, ainda que rolando, ainda que em várias vidas. A oceânica imensidão transmontana. Entre ondas as Atlântidas perdidas.

Bela, voluptuosa, perfumadamente de Julho, a Terra Fria transmontana é uma mulher de espírito inquebrantável, e é ela quem nos subjuga e deixa indefesos, impreparados para tamanha vontade. Misteriosa. Provoca-me. Levo os cabelos em contradança e os meus ombros beija-os o Sol, com abuso de maneiras que atiro com coreografias na musicalidade e no incentivo dos Beatles "(...) come together, right now, over me (...)". 

Até à primeira paragem a estrada é o argumento principal.

 

 

 

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